Os pés feridos percorrem quilômetros de desolação. As sandálias de couro não são suficientes para impedir seus ferimentos, afinal, há estilhaços por toda parte. Ainda sim, ele caminha. Está nitidamente exausto, ainda que sua alma se recuse a aceitar a exaustão. Precisa continuar procurando.
A barra de sua veste esbarra em alguma coisa e, tal como o Cristo tocado pela mulher hemorrágica, sente sair de si poder. Logo ele, que renegou a todo poder e a tudo que ele costuma trazer consigo. A barra da veste está manchada, o marrom habitual agora se mistura ao vermelho escuro do sangue pisado.
Há sangue por toda parte, há destruição e choro. E haveria lugar mais adequado para ele estar? “Senhor, fazei de mim um instrumento da Vossa paz”, repete silenciosamente a oração que ele mesmo criou, enquanto segue procurando pelo cachorrinho de Sarah.
A menina, devastada pela guerra, sentiu seu coração partir-se uma vez mais quando se deu conta do desaparecimento do filhote de cachorro, depois de um ataque aéreo. Não, não orou a São Francisco, visto que nem o conhecia. Orou a Maomé para que poupasse aquela pequena vida inocente. Mas porque o bem é sempre bem e não importa o nome que os homens atribuíram a ele, o “polverino” de Assis ouviu seu chamado.
O coração do santo mais humano que já conhecei compadeceu-se da dor daquela pequena vítima da maldade humana.
Estava ele obstinado por encontrar o cachorrinho, não descansava, não parava nem mesmo quando lhe ofereciam água. Seu corpo e sua alma estavam integralmente dedicados à tarefa que a bondade lhe impôs. E porque ter bondade é ter coragem, o franzino Chiquinho, como amorosamente costumo chamá-lo, enfrentava explosões e o que viesse para cumprir sua missão. Mas já não havia sido assim antes? Toda sua existência havia sido um constante enfrentamento.
As mãos calejadas removem pedras, um coração obstinado de amor é capaz de remover todo o ódio.
O barulho das bombas é ensurdecedor... Como ouvir um grunhido, um latido tímido que seja?
“Ajuda-me senhor...”, ele pede, humilde como ele só. E antes que continue a conversa com o Altíssimo, um latido alto, como que desesperado os interrompe.
“É ele! Ali está!”.
A pequena Sarah volta a sorrir de novo, ainda que com o rostinho todo ensanguentado, quando vê, ao longe, seu cachorrinho retornando para seus braços. Ela se ajoelha em meio ao caos para recebê-lo. Do outro lado daquilo que um dia foi uma rua, Francisco ajoelha também, os olhos marejados desenham um sorriso de agradecimento. “Obrigada, Pai!”.
“O que é isso? Você ganhou uma coleira nova?”, surpresa a garotinha pergunta ao ver o tau no pescoço de seu amado amigo. “Alguém andou cuidando de você, não foi?”.
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