Neste sábado, 16, o Instituto IDI realizará, às 17h30, a Conversa Diversa com a convidada Izilda Toledo, que falará sobre os impactos do racismo no cotidiano e na educação. A taxa é de R$ 60,00 e as vagas são limitadas. O evento acontecerá na Rua Expedicionário José Franco de Macedo, 574, Alameda 2, casa nº 295 (Condomínio Vila de Espanha).
O Instituto IDI foi fundado há cerca de cinco anos por Delza Missias, ativista e proprietária da “Cocada Dalvinha”, com o intuito de prestar consultorias para empresas que queiram promover a igualdade de raça e gênero. Para a fundadora, o local é um “ambiente protegido” que possibilita aos participantes aprender, discutir e expor seus desejos e suas opiniões sobre os deveres e direitos do assunto. “Minha maior motivação é, sem dúvida, trazer a verdade histórica dos negros, pois só assim sairemos das superficialidades das discussões para uma verdadeira mudança rumo a igualdade”, disse, à reportagem do Jornal em Dia Bragança.
Delza conta que ser uma mulher negra e ter consciência da sua ocupação de um lugar de destaque ou liderança, tanto na educação, governo ou no mundo corporativo, é, por si só, um ato de atuação na luta antirracista. Em mais de 30 anos na área de publicidade, começou sua trajetória no maior veículo de comunicação para negros do Brasil, chamado Revista Raça. Em 2018, ela fundou o IDI, onde fazia encontros, como este que acontecerá hoje, porém no Rio de Janeiro, e também prestava consultorias para negros, instruindo-os sobre negociações comerciais e também para novos projetos. Desde então, Delza dá palestras em empresas como streamings, produtoras de cinema, hipermercados, entre outras.
“A luta antirracista não é frase de camiseta, mas sim uma história que inclui aprender e assumir responsabilidades, iniciando com a consciência de que o racismo é estrutural e existe por que alguém pratica essa violência”, destaca a organizadora do evento.
Para Delza, Izilda Toledo é a pessoa que lidera o movimento negro na região. Ela diz que esse encontro nasceu com a premissa de que todos devem ter o privilégio de ter uma aula com a educadora.
Izilda é especializada em narrativas africadas e também idealizadora do núcleo antirracista. Ela está envolvida com questões raciais há anos, desde trabalho com mulheres vítimas de violência, até sua atual liderança do Conselho Municipal de Política Cultural (CMPC).
“O caminho foi longo para obter visibilidade e reconhecimento. Acumulo graduações em vários cursos de especialização em Educação Étnico-racial, pós-graduação em Docência do Ensino Superior em Educação, além de liderar manifestações para valorizar e manter viva a memória dos nossos antepassados como membro da Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil e da Igualdade Racial da OAB – 16ª seção de Bragança Paulista; representante do Movimento de Mulheres Negras do Interior e dos Clubes Sociais Negros do Estado de São Paulo e do Brasil; idealizadora do documentário “Invisível – A História dos Clubes Sociais Negros de Bragança Paulis-ta, sob a direção de Mário de Almeida da Maravilha Filmes, lançado no dia 13 de maio de 2021, pela Lei Emergencial Cultural Aldir Blanc (que pode ser acessado pelo YouTube); atuando através do Núcleo Antirracista Izilda Toledo criado no ano de 2020 na Casa Tombada, onde também atuo como docente. Idealizadora da Proposta de Projeto do Cercune (Centro de Referência da Cultura Negra de Bragança Paulista) e região para a Capela Santa Cruz dos Enforcados, localizada na Rua da Liberdade da cidade”, enumera Izilda.
Izilda acredita que mesmo quem não sofreu a violência do preconceito pode tê-la praticado em algum momento, então, este evento é uma oportunidade para agregar no aprendizado dos participantes inibindo as práticas racistas, fazendo com que eles obtenham uma visão completamente diferente sobre as questões raciais. Ela ainda afirma que, como educadora, gosta de incentivar e priorizar o bom debate, sempre com respeito em ambas as partes.
Ultimamente, muito tem se falado sobre iniciativas para acabar com o chamado “racismo estrutural”, não só em uma única cidade ou país, mas no mundo inteiro. Este é o termo usado para reforçar que existem sociedades estruturadas com base na discriminação que acaba dando privilégio a algumas raças em detrimento das outras.
Por mais que as leis garantam a igualdade entre os povos, o racismo é um processo histórico que modela a sociedade até hoje. Prova disso é o contraste explícito entre o perfil da população brasileira e sua representatividade no Congresso. Enquanto a maioria dos habitantes é negra, sendo 56% (dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), quase todos (96%) os parlamentares são brancos; mulheres brancas recebem 70% a mais que mulheres negras; e outro dado relevante é o da violência contra a população negra, já que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil.
Para Izilda, o racismo estrutural não é uma ofensa ou violência diretamente contra uma pessoa negra, mas sim uma forma naturalizada em que muitos indivíduos olham para a desigualdade entre as raças, fazendo com que esse próprio conceito de raça fosse atribuído apenas para pessoas pretas, como se os brancos não tivessem uma raça e fossem “apenas brancos”.
“A humanização e a igualdade são metas irrefutáveis e as iniciativas criadas para combater o racismo são de extrema importância em qualquer região e em todo momento, explica a educadora. “Falando especificamente da nossa cidade, iniciativas que conscientizam relações sociais são pontos iniciais para uma mudança socioeconômica. Mulheres negras, educadoras e/ou empreendedoras são referências para outras mulheres. Representatividade é fundamental para o desenvolvimento econômico da população negra [...] essas iniciativas nos colocam como representantes e precursores de um movimento que é tema mundial: ‘a igualdade’ de gênero e raça. Isso chama-se: SER referência”, completa.
Por mais que o debate e o combate ao racismo tenham evoluído nos últimos anos, tanto com a criação de novas leis e políticas públicas quanto com a conscientização da população, é discutindo e debatendo pontos de vista que se poderá haver uma democracia racial. As manifestações que aconteceram no fim de maio de 2020 após a morte de João Pedro, no Rio de Janeiro, e George Floyd, nos Estados Unidos, assim como o caso mais recente, quando o jogador Vinícius Junior, do Real Madrid, foi chamado de “macaco” por torcedores do time Valencia, mostram como o racismo e a violência precisam ser debatidos e enfrentados.
Para Delza, o combate ao racismo estrutural levará décadas e, para isso, é necessário aprender sobre os fatos históricos como as leis, políticas públicas, ensino escolar, entre outros, estabelecidos após o período escravocrata; perceber que a escravidão durou 388 anos e são 125 anos pós-abolição no Brasil, sendo assim, as práticas atuais de algumas pessoas brancas são consequências de atos do passado que se reproduzem até hoje. E depois disso, entender que o racismo se naturalizou, mesmo sabendo que a população negra no Brasil é maior do que a população branca. “Nenhum dos itens acima será possível sem que lideranças, independentemente de ser de empresas privadas, estatais ou governo, “autorizem” essa transformação [...] As lideranças precisam estar completa mente envolvidas, abertas e dispostas a investir, para combater o racismo tanto nas relações interpessoais cotidianas como na educação”, defende a fundadora do IDI.
Izilda diz que é notório que vem ocorrendo um movimento na luta antirracista nos últimos três anos, principalmente após o assassinato de George Floyd, com o movimento “vidas negras importam”, mas acredita que isso não está nem perto do o ideal, pois até dois anos atrás, não existiam métricas que analisavam a eficiência das ações afirmativas nas empresas e governo. O novo relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) para ESG (Environmental, Social and Governance), divulgado em 2022, introduziu novas métricas e metas para que as empresas e os governos levem mais a sério as políticas e normas inclusivas.
Atualmente, a televisão está dando mais destaque para atores negros, como a última novela das 19h da Globo, chamada “Vai na Fé”, que contou com dez pessoas negras em seu elenco, dentre eles, os protagonistas – fato inédito até então, pois, somente em 2021, as novelas passaram a ter mais de seis negros no elenco. A educadora comparou esse caso com os EUA, que possui o SuperBowl como entretenimento, que rende milhões de dólares em publicidade e as grandes atrações são personalidades pretas.
Izilda finaliza dizendo que o encontro de hoje é um momento especial para todos os participantes, que serão levados a uma profunda reflexão sobre suas identidades, atuais vivências, e como seres humanos, como desejarão viver e conviver com a diversidade. “Sejam todos (as) muito bem-vindos (as). Enorme Abraço Afro”.
Já Delza explica que escolheu viver em Bragança Paulista pelo acolhimento e receptividade que recebeu em seu empreendimento e percebe o quanto o bragantino pode – e com o tempo se tornará – referência na luta pela igualdade.
Para se inscrever, basta entrar em contato pelo número do WhatsApp: (11) 9 6325-7210 e receber um link para preenchimento do formulário.
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