news-details
Editorial

(In)Feliz dia das mulheres!

Por Ana Raquel Fernandes

Anos atrás, mulheres eram mortas num galpão de fábrica. Seu delito: exigir melhores condições de trabalho por meio de uma greve. As operárias russas, por sua vez, exigiam apenas pão e paz, mas ambos lhes foram negados. As portas trancadas fizeram das primeiras mártires, lembradas até hoje pela instituição de um dia em sua memória, em memória das mulheres de todo o mundo. Não se sabe ao certo a origem desse dia, se o incêndio na fábrica em Nova Iorque, ou a repressão às operárias russas – o fato é que ele, em ambas as situações, remete à morte.

E quantas portas permanecem ainda fechadas diante de nós? Quantas já abrimos à força? Afinal, ser mulher é sinônimo de força, não de fragilidade, como supõem alguns.

O dia 8 de março marca apenas algumas das muitas atrocidades cometidas contra as mulheres e, apesar de ser uma data supostamente festiva, o fato é que ainda não encontramos motivos suficientes para celebrá-lo.

Todo dia, milhares de mulheres são mortas em todo o mundo, vítimas da fome, da incompetência governamental, do ódio gratuito, de seus companheiros, da frouxidão das leis instituídas em sua defesa, de uma sociedade estruturalmente machista e patriarcal.

Todo dia, somos todas nós vítimas desse machismo enraizado em nossa sociedade. Todo dia, uma mulher deixa morrer seu sonho ou é morta antes mesmo de tentar concretizá-lo. Todo dia, uma mulher sente o peso de ser mulher num mundo que odeia as mulheres. Todo dia, uma de nós é desacreditada, insultada, invalidada, violada, desmerecida.

Avançamos bastante, isso é fato, mas estamos ainda longe da tão sonhada paridade. Logramos o direito ao voto, mas não o direito à vida. Ainda não temos o direito de governar nosso próprio corpo ou nossas vontades. Ainda somos julgadas, tal qual nossas companheiras de outrora, por crimes que nunca cometemos.

Ser mulher ainda é um crime em nosso país. Um crime para o qual a sanção é a morte. Então, o que celebramos neste oito de março? A vida das que ainda resistem? O privilégio de estarmos nós, vivas?

Enquanto escrevo este texto, a imagem que me vem à mente não é outra, senão a das mulheres mineiras. Corpos femininos agonizando entre escombros; meninas que não se tornarão mulheres e, com seu sotaque doce e cantado, não dirão mais palavra alguma. Então, que nós gritemos por elas!

Que nosso grito se estenda desde Minas até os confins do mundo, que nossa voz se faça ouvir, a despeito dos conselhos que ouvimos a vida toda; aqueles mesmos que nos alertavam de que mulher não deve aumentar o tom de voz, nunca.

Que ninguém, absolutamente ninguém, nos diga o que fazer ou como nos comportar.

“Que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre” (Simone de Beauvoir).

(In)Feliz dia das mulheres!

***

Siga o JORNAL EM DIA BRAGANÇA no Instagram: https://instagram.com/jornalemdia_braganca  e no Facebook: Jornal Em Dia

Receba as notícias no seu WhatsApp pelo link: https://chat.whatsapp.com/Bo0bb5NSBxg5XOpC5ypb9D

        

        

Você pode compartilhar essa notícia!

0 Comentários

Deixe um comentário


CAPTCHA Image
Reload Image