Acompanhando comigo a notícia da invasão norte-americana à Venezuela, meu filho – que completará sete anos no próximo dia oito – indagou-me: “Quem é pior? Esse homem de bigode (Maduro) ou o alaranjado (Trump)?”. “Magnífica pergunta”, disse-lhe imediatamente, e então comentei que muitos especialistas em política devem estar se indagando o mesmo até agora.
Por essas e outras é que tenho muito orgulho do pequeno. Ele, de sua forma, está tentando entender este mundo caótico em que vivemos, e isso é maravilhoso.
Dias depois, ainda observando os noticiários – agora sobre a repressão do mesmo Governo Trump contra imigrantes em Mineápolis –, ele então me fez mais duas perguntas. Primeiramente, o porquê de estarem “batendo nessas pessoas”. Respondi: porque o “homem alaranjado” quer que eles, imigrantes, voltem para seus países de origem. Daí ele perguntou, naturalmente, a respeito do que vinha a ser um imigrante.
Expliquei-lhe, claro, que era alguém que saía do país em que nascera para viver em outro. Ele então olhou para mim, e eu disse logo: “Sim, seu pai também é um imigrante”.
Mas foi aí que ele se assustou:
– Então o Trump pode mandar bater no senhor também?
Sorri e disse que não se preocupasse. Pois, antes de tudo, Mister Trump não mandava no Japão – sim, sei que isso não é totalmente verdade, mas não quis complicar. E, segundo, porque eu tenho aqui visto permanente, ou seja, que eu poderia viver no Japão legalmente por tempo indeterminado.
Ele, claro, queria ainda entender o porquê de alguns imigrantes serem perseguidos e outros não. Disse que havia vários motivos, mas que, em termos gerais, um dever era comum a todo imigrante: o de respeitar as regras do país que o acolheu para não ser de algum modo punido.
E dei-lhe um exemplo: o do Koseki Tohon, que é o registro familiar no Japão. Nele, constam os nomes de minha esposa e de meu filho como legítimos japoneses, mas quanto a mim apenas uma nota de que há um estrangeiro (leia-se: marido) vivendo no mesmo lar. Sim, caros leitores, sou basicamente uma “nota de rodapé” na estrutura familiar japonesa apenas por ser... estrangeiro.
Pode parecer absurdo – e muitas famílias, frutos de casamentos internacionais, têm realmente questionado o porquê de essa lei não mudar. Mas o fato é que é assim, e, como imigrante, tenho de aceitar tal realidade. E a aceito sem problemas; pois penso que tudo vale a pena, desde que, no dia a dia, eu esteja com a minha família: lutando e sorrindo ao seu lado, ao mesmo tempo em que acompanho os olhinhos curiosos do meu filho tentando compreender o porquê do mundo ser do jeito que é.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quinhentos concursos literários, é também roteirista de cinema e, em 2024, foi o roteirista vencedor do “WriteMovies Script Pitch Contest”, nos Estados Unidos. É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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