Eis que chega ao fim o resultado do pleito de 2022, no qual finalizamos o processo eleitoral com a decisão em segundo turno para a escolha do mandatário do país e, em alguns estados, também de governadores.
Assim se constitui a democracia – regime em que pessoas escolhem e são escolhidas; em que o governo é exercido pela soberania popular; em que cidadãos elegem seus representantes, a partir de eleições regulares e diretas, em prol das pautas que defendem. Não à toa a riqueza do processo – ou deveria ser – que oportuniza (re) afirmar novas e velhas bandeiras de luta; e, enquanto direito constitucionalmente reconhecido, se coroa o ápice do próprio sistema democrático.
Enquanto atores políticos, nosso compromisso não se encerra nesse momento, segue compondo outros espaços do nosso cotidiano: desde acompanhar as decisões políticas tomadas – por nossos representes, mas não só – até a participação efetiva em arenas de debate, espaços colegiados e instâncias decisórias do nosso cotidiano, reconhecendo que podemos – e devemos – acompanhar as decisões tomadas, inclusive para (re) ver nossas próprias escolhas.
Algo que poderia ser aprimorado no âmbito de uma educação política, cidadã, crítica e libertadora, capaz de compreender as estruturais desiguais deste país e tensionar os meios de enfrentá-las. Não à toa, é estratégico o desmantelamento do sistema educacional “tradicional” – quiçá algo amparado no mestre Paulo Freire – o que compromete que as pessoas se reconheçam como parte do sistema político e participem ativamente dele. Educação que pode – talvez a única – abalar efetivamente as estruturas de uma sociedade, em especial como a brasileira, que acumula uma imensurável dívida social; capaz de fomentar a famigerada consciência de classe, reconhecendo as injustiças e exploração geradas pelo sistema capitalista, no qual a condição de assalariado lhe permite aproximar de seus pares, seja qual for sua renda. Ou, ainda, educação que permitiria que cenas patéticas, antidemocráticas e criminosas – como os atuais bloqueios de rodovias e manifestações inconstitucionais – não se espalhassem pelos país afora após o resultado do pleito, fundamentada em supostas fraudes – ainda que não haja provas, apenas convicções – e descontentamentos com o resultado, atropelando tudo o que esteja à sua frente, em prol do “seu” direito de protestar. Imaginem se fosse o contrário!
Cenas que se tornam ainda mais absurdas ao parecer contar com certa passividade dos órgãos de segurança, parecendo até contar com apoio deles. Muita bomba já teria rolado se fosse manifestação de professores em prol de uma educação de qualidade, melhores condições de salário e trabalho. Num país onde a educação e seus atores estão desacreditados, soam como perigosos e degradadores da família tradicional, da moral e dos bons costumes, não é por menos que padres, pastores, coachings e influencers – picaretas – fazem mais sucesso!
Ainda assim, o brilho da vitória – “dentro das quatro linhas da Constituição”, como nos lembra o atual futuro ex-presidente – não apaga da festa da democracia. Democracia que por inúmeras vezes foi mencionada estar em risco, face ao modo como vinha sendo gerida, fomentando o ódio, a violência e a destruição de todas as formas de vida no país.
Ao contrário, na democracia, se convive com diversidade: de pessoas, pensamentos, compreensão de mundo e de realidade; se prevalece o respeito acima das diferenças, inclusive do resultado do pleito. É muito conveniente acreditar que o sistema é falho somente quando não lhe favorece. E longe de uma visão romantizada ou cega, não será nada fácil reconstruir o país, sobretudo porque a cisão e destruição feitas são intensas; as feridas ainda sangram muito e a dor ainda está presente...
Mas seguimos, com a certeza de que estamos do lado certo da história, de que a luta vale a pena e que a vitória – grande ou pequena – confirma o caminho que estamos seguindo, no qual se aprendeu a ganhar e perder.
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo
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