No Japão, o mês de setembro é um tempo de despedidas. Representa o fim necessário para que uma nova etapa comece em outubro – é o caso, por exemplo, das chamadas “escolas internacionais” (com aulas ministradas em Inglês), cujo ano letivo se inicia exatamente no décimo mês.
Um período de despedidas inevitáveis, claro, mas que, para este professor latino-americano que vos escreve, emocionado por natureza, traz uma incômoda melancolia. Pois, afinal de contas, alunos que estavam comigo havia dois, três anos, começam a dizer adeus. Muitos não porque querem, mas simplesmente porque assim tem de ser. Os planos mudam, a vida muda e o planeta continua a girar. E, por mais que nos entristeça, temos de aceitar com naturalidade o fim de um ciclo. É o que os japoneses chamam aqui de “shikata ga nai” (algo como “não há outro caminho”).
Aliás, os japoneses possuem frases que, curtas e certeiras, expressam de um modo perfeito os momentos da vida. Além de “shikata ga nai”, uma outra frase da qual gosto muito é: “ichi-go ichi-e”.
Escutei-a pela primeira vez em 2005, naquele que foi o meu primeiro emprego no Japão. Na época, eu tinha concluído o mestrado e, recém-casado, precisava naturalmente garantir o sustento de meu novo lar. Enquanto não conseguia nada fixo, comecei a dar aulas particulares para o Sr. Saito, que era então, em Osaka, um dos chefões de um famoso jornal, o “Yomiuri”. E, um dia, falando-lhe a respeito da barra que eu estava enfrentando para encontrar um lugar ao sol japonês, ele resolveu me dar uma força oferecendo-me alguns arubaitos (trabalhos temporários) por meio de seu jornal. E o primeiro deles foi trabalhando na portaria de um festival de música clássica.
Um emprego que veio na hora certa, mas que eu, ferido em meu orgulho, aceitei sem grande entusiasmo, achando erroneamente que a oportunidade era demasiadamente pequena para quem tinha o meu histórico acadêmico. Mas, como eu disse, precisando de emprego, começando uma vida de casado, resolvi engolir o orgulho e, na semana seguinte à entrevista, lá estava eu na portaria para receber os espectadores do festival de música.
E foi lá, naquela portaria, que conheci o Sr. Ueno. Devia ter mais de sessenta anos, cara de poucos amigos e não falava uma palavra em Inglês. Era meu chefe na portaria, mas ficava ao meu lado como qualquer outro trabalhador, recebendo o público. Nos primeiros dois dias, confesso, eu o odiei. Sentia-me humilhado por seus constantes esporros. E, certa vez, revoltado, disse-lhe a seguinte frase impensada: “Maldito Japão! Não sei o que estou pagando para ter o destino ligado a este país, sendo humilhado da forma que estou sendo!”. Foi quando, para a minha surpresa, Sr. Ueno disse-me apenas: “Ichi-go ichi-e”. E, em seguida, continuou a explicar-me, isso num surpreendente Inglês (ele havia ocultado essa habilidade até então), que “cada pessoa que conhecemos, cada encontro, por mais breve que seja, é um momento único: uma oportunidade que não vai se repetir”. Um discurso igualmente breve que ele concluiu com um sorriso e estas palavras: “Aproveite esse encontro, o nosso encontro. Você há de se lembrar um dia destes momentos na portaria”.
E, de fato, jamais esqueci-me: nem de Sr. Ueno nem daquele emprego. Como também não me esqueci de suas palavras. E hoje, despedindo-me de estudante, senti mais uma vez o poder e a sabedoria do “ichi-go ichi-e”. O que fez com que, mesmo em um momento triste, de despedida, eu esboçasse um sorriso – sentindo-me grato, muito grato mesmo, por mais um encontro vivenciado.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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