Recentemente, fui assistir ao filme “Coringa”. Protagonizado por um visceral Joaquin Phoenix, a obra cinematográfica tende a dividir opiniões – eu, particularmente, adorei! –; mas certamente não pode ser ignorada: é como se, ao longo das duas horas de projeção, um espelho fosse esfregado contra o nariz empinado de toda sociedade desigual. Mas, controvérsias à parte, uma das coisas que mais me chamou atenção foi o riso nervoso do personagem: um dos fatores responsáveis para que este, sendo constantemente ridicularizado, decida isolar-se cada vez mais do convívio social.
E chamou-me atenção porque, infelizmente, tenho encontrado característica semelhante em alguns jovens japoneses: seja no metrô, nas ruas ou mesmo em sala de aula. E antes que me acusem de estar sendo irresponsável ao relacionar um personagem psicótico a esses jovens “apenas” nervosos, quero fazer um esclarecimento: esta crônica não se propõe a rotular o povo japonês com doença mental alguma; mas somente abordar um problema que tenho verificado aqui cada vez com maior frequência: o Hikikomori – uma forma de fobia social (medo de interagir com as pessoas), que tem acometido, em especial, os adolescentes. E um dos motivos para tal comportamento arredio? O temor exacerbado de ter uma imagem negativa perante o grupo a que pertencem.
Afinal, a coletividade é, culturalmente, algo muito importante para os japoneses. Por isso, sentir-se deslocado pode ser devastador, principalmente para os jovens. Como lidar, então, com essa sensação de ser um “estranho no ninho”? É aí que cabe, a meu ver, um fator que muitas famílias no Japão têm desprezado: o poder da comunicação com os seus rebentos. Nesses anos que aqui moro, já tive a oportunidade de visitar alguns lares, e a cena mais comum que vi – claro que há exceções – foi: o pai com a cara “fechada” e pose de semideus; a mãe amedrontada e preocupada em obedecer ao marido e o filho sendo diminuído pelos pais em frente às visitas. E isso ocorre porque, na sociedade japonesa, segundo o que aprendi, elogiar o próprio filho perante outros é inapropriado. O que até entendo; uma vez que em nosso mundo latino, penso, elogiamos os filhos até demais: de um modo até surreal. Mas o fato é que nenhum extremismo é salutar: e, assim como elogiar em demasia não faz bem, criticar toda hora pode ser tão ou mais prejudicial. Pois é o que tem ocorrido no Japão: crianças com a autoestima estraçalhada pelos próprios genitores.
É claro que, sendo algo cultural, é perigoso afirmar o que há de certo ou errado nessa forma de agir dos pais japoneses. Mas, como professor e também pai, confesso que me preocupam esses risos nervosos em rostos tão jovens... Que não deveriam precisar de máscaras: com medo do mundo ao redor.
EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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