Quando o avião aterrissou no aeroporto de Narita, em Tóquio, fechei os olhos e pensei: “E agora? O que vou fazer, sozinho e tão longe do meu lar?”. E, nesse instante, juro, uma lágrima caiu – reação esta que, claro, causou estranheza nos meus companheiros de viagem. Pois era realmente inexplicável para os demais brasileiros que alguém não estivesse eufórico com a possibilidade de morar e estudar no Japão: vínhamos todos, aliás, para ficar no país por um mínimo de um ano e meio, como bolsistas (o que, para alguém de origem pobre como eu, já era motivo suficiente de júbilo). Porém, não foi com alegria que pisei pela primeira vez o solo japonês. Na verdade, aquela noite de quatro de outubro de dois mil e um foi a mais fria e melancólica de minha vida até então.
Isso porque a euforia de morar no exterior dissipou-se tão logo me despedi, no aeroporto de Manaus, de meus pais e de meu irmão: naquele instante, o temor do desconhecido e a consciência da longa distância, parece, fizeram-me mergulhar em uma melancolia que, para desespero dos demais estudantes, viria a perdurar durante toda a viagem, e, mais grave, continuaria ainda semanas depois de minha chegada a Osaka: cidade onde eu ficaria residindo.
Sim, admito: fui um “chato de galochas” no início de minha jornada na Terra do Sol Nascente. Reclamando toda hora, falando em voltar logo para o Brasil... enfim, um resmungão! Os colegas de alojamento até tentavam animar-me com palavras como: “Com o tempo você se acostuma”. Lembro-me, aliás, de que, certa noite, em um restaurante, uma amiga inclusive profetizou: “Ele vai se acostumar! E querem saber mais? É possível até que ele seja o único de nós que fique morando no Japão!”. E, claro, naquele momento, achando que ela dizia uma grande bobagem, protestei: “Do jeito que eu estou detestando este país, duvido!”. Mas o resto da história já se sabe: concluí o Mestrado, casei-me com uma japonesa, e, neste mês de outubro, completo dezenove anos de “Nippon”. Praticamente a metade de minha vida, vale frisar, considerando que parti do Brasil quando tinha vinte e seis anos de idade – e hoje tenho quarenta e cinco!
E, nestas quase duas décadas transcorridas, tive naturalmente vários momentos de amor e de ódio em relação à terra onde constituí minha família. Mas, sobretudo, tenho um profundo sentimento de gratidão: uma vez que o Japão abriu-me possibilidades que, infelizmente, não tive no Brasil. E não estou dizendo com isso que morar no exterior é melhor ou pior. De modo algum! Cada um sabe o lugar em que é feliz. Há pessoas que são perfeitamente felizes em seus berços. Outras, como eu, têm de guardar a “saudade” na bagagem e meter o pé na estrada. E o meu destino... foi o Japão. Um país que, sem imaginar nem desejar (como narrei no início da crônica), acabou se tornando o meu verdadeiro lar.
Se os medos daquela noite de outubro tiveram fim? É difícil dizer. Ser imigrante é, como citei, levar na bagagem a saudade (que também é uma espécie de “medo do presente”). Já os demais medos cotidianos, ah, esses o “pé na estrada” encarrega-se de chutá-los para o mais longe possível...
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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