Dia desses, escutando a rádio brasileira, soube que a cidade do Rio de Janeiro ficou dois dias sem abastecimento de água. Infelizmente, nada de novo, ao que parece, no nosso front tupiniquim.
E faço tal crítica ao mesmo tempo em que expresso minha grande solidariedade aos irmãos cariocas, uma vez que, sim, também já passei lá os meus sufocos com a falta d’água quando morava em Manaus – e isso, pasmem, com o Rio Amazonas e toda a natureza ao redor.
Lembro-me que, quando estávamos em minha cidade natal, certa vez minha esposa testemunhou, boquiaberta, minha mãe e eu correndo desesperados com os baldes porque, simplesmente, a força da água começava a diminuir nas torneiras – sinal, lógico, de que o precioso líquido estava chegando ao fim.
Minha mãe, por sua vez, tentava tranquilizar a nora estrangeira dizendo: “Não se preocupe, minha filha, pois, como não avisaram, a água voltará logo...”.
É claro que a situação presenciada havia dado um nó na cabeça nipônica de minha esposa. Que diacho de país era aquele onde se cortava a água de uma hora pra outra?
Claro que parece estranho para um estrangeiro! Ainda mais para uma japonesa, oriunda de um país onde os serviços públicos (e privados) decididamente funcionam.
E aqui vai um exemplo do planejamento nipônica quando o assunto é serviço. Na mesma semana do pânico dos cariocas, acima referido, era anunciado em meu prédio que haveria interrupção do fornecimento de água por... uma hora. E tal aviso, vale frisar, estava fixado na entrada do prédio – e em todos os andares – com duas semanas de antecedência. Quando chegou o momento, a água foi interrompida por exatamente... uma hora.
E, vendo isso, é claro que nos indagamos sobre o porquê de disparidades entre o Brasil e o Japão?
A meu ver, a explicação vai muito além do campo econômico. Para mim, é, sobretudo, cultural.
Porque assim é a forma de ser do povo japonês: planejar sempre para evitar, o máximo possível, qualquer dor de cabeça.
Afinal de contas, não há coisa que desespere mais os japoneses do que “sair da caixa”, desviar-se do plano inicial, seja qual for o motivo.
Um excessivo planejamento que, para ser justo, também traz uma desvanatagem: o da capacidade de improvisação.
E aí é que, a meu ver, entra o ponto forte dos “povos dos países bagunçados”, como é o caso do nosso Brasil-sil-sil, que acabam criando indivíduos com essa maravilhosa capacidade de “virar-se nos trinta”, seja qual for a situação.
Não é uma beleza, meu povo? Pensamos tanto “fora da caixa” que, às vezes, até nos esquecemos de enchê-la, inclusive com água.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quinhentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi o roteirista vencedor do “WriteMovies Script Pitch Contest 2024”, nos Estados Unidos. É sócio- correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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