Meus olhos grandes e curiosos andam sempre à procura de velhas novidades, sempre sedentos por aquela brechinha de poesia capaz de transformar todo um dia. E porque os exercito para ela, ela sempre vem.
Às vezes, muito singela, quase imperceptível a olhos destreinados para a beleza, outras, majestosamente exuberante, como é o caso dos ipês.
Ah... O caso dos ipês! O caso dos ipês é o caso da espera, da silenciosa e necessária espera. Todo ano me pego esperando por eles, e eles, por si mesmos. Na verdade, sempre estiveram ali: semente, árvore, folha, mas quando o esplendor de suas flores se revela ao mundo é que se fazem mesmo notados.
Injusta essa visão assim tão seletiva. As flores sempre estiveram ali, encubadas, mas flores. Ipês são gestantes da natureza, produzindo na aspereza do tronco a delicadeza da flor. Ipês são arautos do Altíssimo, cuja missão maior é nos lembrar da necessidade de espera. Do silêncio imperioso de quem espera e confia.
Todo ano, obedientemente, eles esperam. Todo ano, espero por suas flores e tento me policiar para não lhes negar o mérito do que eles foram antes que elas surgissem.
Todo ano quero ser flor também, validando a espera de minha alma pela poesia. Todo ano, quando chega a florada do ipê, sinto-me um pouco mais florida também, reconheço e celebro minhas próprias esperas, e agradeço pelas que ainda virão. Já me sei flor, antes mesmo de ser, visivelmente.
Carrego comigo a essência dos ipês, esse misto de angustiante espera e florescer exuberante. Estou como os ipês, gestando meus sonhos e amores e pequenas alegrias. Sim, eles já estão em mim, prontos para florescer, quando chegada a hora.
Todo ano, reaprendo com ipês a paciência e também a fé, por vezes negligenciadas pelo caminho. Reaprendo a caminhar, enquanto espero, e a observar com meus olhos grandes e curiosos a bendita novidade de cada dia, a poesia escondida por detrás de cada ramo seco, para que quando cheguem as flores, eu as reconheça, porque sempre as soubera ali.
0 Comentários