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SUB-VERSÃO

Filhos e filhas de mil homens e mulheres

“É dessa massa de que somos feitos, metade indiferença, metade maldade” – José Saramago.

Não, não vou dar nenhum spoiler, como se costuma dizer agora. O que pretendo com esse texto é conduzir, você, leitor através da aventura mais incrível que pode haver: a existência humana. E isso, sob o olhar absolutamente poético de Valter Hugo Mãe, em sua obra “O filho de mil homens”, que acaba de virar filme e está na plataforma Netflix.

Estava ansiosa pelo lançamento, e a espera valeu a pena. Fui surpreendida por uma doçura poética e cortante, por facetas humanas abomináveis, por questionamentos que ainda ressoam em minha alma. Encontro-me em estado de encantamento e pavor.

Filhos de mil homens, tal qual Crisóstomo, somos todos, ao passo que filhos de ninguém. Filhos de uma humanidade que nos repele e acalenta. Somos todos filhos renegados dela.

Mas reside em nós ainda alguma ternura, algum afeto que nos une, por reconhecer nossa genuína habilidade para simplesmente sermos.

Das histórias que se entrelaçam ao longo do filme, ficam algumas lições, um sincero encantamento e muita, muita reflexão. Depois de um certo sentimento de vergonha e revolta diante da maneira como aquelas pessoas são tratadas e tratam seus semelhantes, ressoa em nós a pergunta cruel e necessária: Quantas vezes também tenho agido assim? Quanto de meu preconceito ainda é velado e orientado por ensinamentos obsoletos?

Quem te ensinou isso? Pergunta Crisóstomo ao filho que escolhera, quando este se recusa comer o churros vendido por uma transsexual. Sim, porque os preconceitos são todos ensinados e aprendidos, isso fica evidente. A raiva do avô é passada para o neto, até que o ciclo odioso é quebrado. O menino, neto de ideias ancestrais e absolutamente repugnantes, reaprende o respeito a partir do exemplo do novo pai, ou melhor, do único pai que conheceu. Um pescador, cansado da solidão imposta pela vida, pela maldade das pessoas e por si mesmo, busca entre outros renegados, amor. E encontra!

O amor está sempre à espreita... Mesmo quando as barreiras do ódio e da ignorância se erguem, tentando abafá-lo. O amor acha jeito, penetra escorregadio pelas frestas que deixamos, mesmo que inconscientemente abertas no peito. O amor é o fim para que fomos feitos, todos nós.

E com que sensibilidade e poesia o filme nos relembra disso!

Uma ode à humanidade, um lembrete feito em carne viva, a ferro e fogo, de nossa capacidade para o horror, bem como nossa habilidade para o amor. Dessa dualidade é que somos feitos, muito mais complexa do que o paradoxo do bem e do mal. Somos tudo e todos ao mesmo tempo. Filhos e filhas de mil homens e mil mulheres. Resultados inacabados de escolhas anteriores a nós mesmos. Projetos mal-acabados de nós.

E os nós que nos unem, apesar de invisíveis, são muito mais fortes e resistentes do que supomos, sejam eles bons ou maus.

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