Sem uma bola de cristal ao alcance das mãos, escrevi em fevereiro de 2020 que o Japão poderia enfrentar alguns problemas durante a realização dos Jogos Olímpicos - inicialmente marcados para aquele ano - , principalmente no que se referia a... transportes. Bem, quem diria que, passados alguns meses, o transporte seria o menor dos problemas para Tóquio, que ficou mesmo a ponto de não realizar o evento em virtude, claro, da pandemia.
Digo “a ponto” porque, apesar de todos os protestos da população local - e com toda a razão, vale frisar - , os Jogos Olímpicos de Tóquio terão sua abertura na próxima semana (registrando: escrevo esta crônica em um domingo, dia 18 de julho, para ser publicada no sábado, dia 24, quando o evento já terá tido início). Os jogos, portanto, ocorrerão, não há mais dúvida sobre isso. O problema é que hão de acontecer em um ambiente e condições nada animadores: com um (novo) estado de emergência decretado pelo governo - sim, o número de contagiados na capital japonesa tem crescido recentemente -; o que levou, por sua vez, à decisão dos organizadores de vetar-se a presença de público nos locais das provas. Em resumo, uma olimpíada em meio a uma grave crise sanitária, mas que vai ocorrer: afinal de contas, os patrocinadores precisam garantir os lucros, não é mesmo? E o povo “que se exploda”, diriam os “justos veríssimos” que compõem o Comitê Olímpico Internacional...
Fico pensando como devem estar se sentindo, em meio ao caos, os atletas que aqui chegaram: naturalmente, com o objetivo das medalhas e de fazer história, mas agora com o temor de estarem arriscando as próprias vidas (e de todos ao redor) para a realização de seus sonhos. E conscientes de que até mesmo a tão tradicional outorga de medalhas (ápice de um esforço de quatro anos) será afetada por necessárias medidas de segurança: sem, por exemplo, o aperto de mãos, os abraços, ou quaisquer outras formas de contato humano, anulando assim mais uma das mensagens olímpicas de integração dos povos. Uma situação, para dizer o mínimo, incômoda a todos esses esportistas.
Confesso que, fã desde as Olimpíadas de 1984, presenciar tudo isso morando em Tóquio entristece-me e muito. Sonhava, sim, um dia poder assistir ao vivo aos jogos, principalmente o voleibol, esporte que sempre admirei e no qual o nosso Brasil é sempre candidato ao título. Mas, mesmo que fosse permitida a presença de espectadores, a verdade é que eu não arriscaria a saúde de minha família somente para realizar um sonho de torcedor. E esse é também o pensamento de muitos japoneses. Tenho conversado com os meus estudantes a respeito, e, desde jovens a anciãos, a resposta tem sido a mesma: “Não comprei ingressos, mas, mesmo se o tivesse feito, não me arriscaria a ir a evento algum”.
Um alívio, certamente, que a população japonesa pense dessa forma. Só espero que, durante a transmissão dos jogos pela tevê, não sejamos surpreendidos vendo aglomerações em estádios - como observamos durante a Copa América e, principalmente, a Eurocopa (lembram-se do jogo Hungria vs. Portugal? Uma calamidade...). Mas, sinceramente, conhecendo como o povo japonês é cauteloso, não creio que aglomerações ocorrerão por aqui nas próximas semanas.
No mais, torçamos por nossos atletas, mas, especialmente, para que o mundo todo possa dar logo um “ippon” nessa maldita pandemia.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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