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Meio Ambiente

Fábulas da natureza

Dizem que a natureza é sábia e que os lemingues, pequenos roedores selvagens que vivem em bando, são suicidas. É fato que, em certas circunstâncias de sua curta vida, milhares de lemingues saem em desabalada carreira, sabe-se lá por que, e seguindo cegamente o chefe, vão todos precipício abaixo. A cena foi imortalizada em “O Ártico Selvagem”, documentário de 1958 produzido pela Disney.

Outra fábula é a das “Ovelhas de Panurge”, do escritor francês François Rabelais, que relata esse incompreensível e cego comportamento de massa que leva todo o mundo a correr (e até matar) sem se perguntar por quê.

A fábula das ovelhas conta que, pra se vingar de seu desafeto, Panurge compra uma ovelha desse seu vizinho e a joga no mar à vista de todos... e todas as outras ovelhas sozinhas se põem a correr para o mar e se jogam atrás.

No premiado livro “O Animal Social”, o norte-americano Elliot Aronson descreve como se forma o círculo de conformidade em torno de um chefe de modo a impedir qualquer divergência possível apesar de tudo.

Para mostrar as duas faces do espelho, o cientista analisa um trecho das memórias de Albert Speer, (“Por Dentro do III Reich), um próximo conselheiro de Hitler, que foi ministro do armamento e produção da Guerra da Alemanha.

“Em tal atmosfera, mesmo a atividade mais bárbara parecia razoável porque a ausência de dissenções levava à ilusão de unanimidade, impedindo qualquer indivíduo de alimentar a possibilidade de outras opções”. Seria também o caso Watergate contra Nixon, com a destruição de provas e falsificação de documentos por personalidades eminentes. E, por que não, a invasão do Capitólio, nos Estados Unidos, até hoje impune?

Quando se cristaliza esse círculo hermético em que cada um se espelha no gesto do outro e perde a própria autonomia para não ser “cancelado”, como se faz hoje sumariamente nas redes sociais, sem defesa nem desculpas possíveis, rompe-se o laço social explica o francês Alain Peyrefitte no seu livro “A Sociedade de Confiança”, e reinam então os excessos e as injustiças.

O que leva milhares de migrantes a se lançarem ao mar, tal qual lemingues, em barcaças precárias, fugindo do que deixam para trás sem saber o que os espera pela frente?

O comportamento de grupo do ser humano é complexo. Este é capaz de destruir o próprio ambiente em que vive... para sobreviver com seu grupo de vida. E ainda, adotar opiniões e parâmetros sob pressão do grupo e não por convicção pessoal, por exemplo.

A capacidade de autodestruição do ser humano supera a dos lemingues, pois passa pela destruição do próprio ambiente em que vive e do qual depende. A diferença, no entanto, está na capacidade e/ou vontade da espécie humana para dizer NÃO e mudar de rumo... desde que pare de correr por todo lado insensatamente... ou não?

Teresa Montero Otondo

Coletivo Socioambiental Bragança Mais

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