Data de 2012 o reconhecimento de Paulo Freire como patrono da educação brasileira, depois de sete anos de tramitação no Congresso Nacional. Seu método “simples e revolucionário” de alfabetização de adultos, sobretudo pobres, além de permitir o acesso de milhares de pessoas ao conhecimento, imprimiu outro modo de ensinar, em algo que faça sentido ao educando e lhe permita refletir, pensar, questionar...
Dizia o mestre: “Não basta saber ler que ‘Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”. Algo que vai muito além de uma educação nos moldes decoreba, acrítica e apolítica.
Modo e método de ensinar que incomoda e tensiona as estruturas de um país – como o Brasil – conservador, desigual e moralista, que segue reproduzindo injustiças e mantendo os privilégios a grupos seletos.
Educação que no âmbito do sistema capitalista é tratada como mercadoria, o que nos permite afirmar que há sim interesses – financeiros e ideológicos – das grandes fundações, corporações e empresas tanto em lucrar com ela, como em defender métodos de ensino, ainda que o façam por quem idealiza uma educação descolada da realidade, que atenda aos seus interesses.
A exemplo da reforma do chamado “Novo Ensino Médio” aprovada em 2017, cujo discurso sedutor em dar autonomia ao estudante seguir uma área de interesse, omite a informação que conteúdos essenciais, em especial na área de humanas – tanto no campo do acesso ao conhecimento em si, quanto em sua preparação para o Ensino Superior – não serão mais ofertados. No universo privado, isso não ocorre, o que permitirá a estes estudantes manter seus passos à frente no acesso à universidade!
Propagar narrativas de uma educação engessada, ultrapassada, que vive uma suposta crise pode ser conveniente em atender os anseios de segmentos que deseja tê-la sob controle. Já dizia Darcy Ribeiro “a crise na educação não é uma crise, é um projeto”. Justamente porque, pela educação, é possível tensionar e questionar as injustiças e desigualdades que nos cercam; nos moldes freirianos, por meio de uma educação transformadora e libertadora, é possível não só mudar o indivíduo, mas a sociedade como um todo, mas ela precisa contar – necessariamente – com condições objetivas para que cumpra seu papel.
O “Novo Ensino Médio” da era Temer é – antes de tudo – uma tragédia para educação pública no país, na medida em que parece institucionalizar a precarização do ensino, tanto a partir do esvaziamento de qualquer forma de criticidade do currículo ofertado; quanto em acentuar a precarização do trabalho docente – por vezes já precarizado – com sobrecarga de trabalho e manuseio de conteúdo e metodologias de aula que não são da sua área de formação; tanto ainda em distanciar ainda mais o acesso ao Ensino Superior entre quem pode pagar um ensino com melhor formação e quem não pode.
No último dia quinze de março, os estudantes secundaristas propagaram um movimento virtual e nas ruas de fomento a revogação do “Novo Ensino Médio”. Se havia alguma possibilidade desses estudantes contarem com uma formação que, entre outras, os preparasse para o Ensino Superior, com essa nova grade – que já conta com aulas de coach, preocupação com o mundo pet, projetos de vida e outras aberrações – essas possibilidades deixam de existir.
Estudar em nosso país é, antes de tudo, um ato de rebeldia, mas também de resistência!
Rebeldia porque não se aceita as coisas como estão dadas! Razão pela qual somamos coro aos estudantes secundaristas, trabalhadores da área, ativistas e tantos outros coletivos, que se levantam nesse grito: Revoga “Novo Ensino Médio”!
Resistência porque se entende que somente por meio de educação pública, crítica, democrática e transformadora, é possível a formação de cidadãs e cidadãos capazes de refletir e transformar sua realidade e o meio que lhe cerca, algo que lhe permitirá entender e questionar por que afinal “Eva viu a uva”?
Revoga “Novo Ensino Médio”!
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo
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