Eu só queria escrever ao menos um texto bonito para vocês, meus leitores. Só um. Unzinho que fosse e já aplacaria essa tristeza do meu teclado e do meu coração.
Eu queria... Mas o Brasil só me tem feito debruçar minha palavra e minha alma sobre desastres, crimes, desastres anunciados, ódio, indiferença, desrespeito, desumanidade.
Eu queria ao menos uma vez não ter de me utilizar dos temas prontos, que a miséria me oferece à mão farta para dar voz à minha escrita. Eu queria, eu juro que queria escrever sobre felicidade, paz, justiça, igualdade e amor. Mas como fazê-lo?
São tempos sombrios e escolhi ter uma escrita militante. Pode parecer ingênuo de minha parte, mas confesso que meus verbos, substantivos, adjetivos e palavras todas sempre estiveram e sempre estarão à disposição dos ideais e da luta por justiça social e igualdade de direitos.
Meus textos andam sujos, vocês notaram? Sujos de sangue!
Não que não haja motivos de pequenas alegrias... Sim, há, até porque o Altíssimo não nos deixaria assim tão entregues à mediocridade e ao ódio gratuito, mas sabem, eles têm se apequenado cada vez mais.
Eu queria falar que o jovem negro não foi morto pelo segurança do supermercado por ser negro. Eu queria dizer que a mulher espancada por quatro horas foi espancada porque mereceu. Ah, mas que sandice! Quem é que em seu juízo perfeito consegue conceber algo assim? Quando foi exatamente que nos tornamos reis, bedéis e juízes? Quando foi que nos desumanizamos a ponto de criminalizar a vítima pelo horror que sofreu, enquanto legitimamos a ação de seu algoz?
Existe algo de muito estranho e mau acontecendo conosco. Mau, porque definitivamente não se trata de ingenuidade ou ignorância, não, trata-se de canalhice mesmo.
O horror instituído governo é o maior exemplo desse mau, justamente porque, e isso desde sua campanha, legitima esse mau, sob a escusa de se fazer justiça, de recuperar a dignidade perdida.
E quanta baboseira sai da boca de ministros como a Sra. Damares... Eu chego a pensar que é tudo proposital, e ela seja talvez apenas mais um entretenimento, a fim de desviar a atenção dos mais desatentos das barbáries que esse seu governo vem promovendo em todas as áreas.
Sabem, eu só queria escrever um texto bonito.
Eu ainda vou escrever um texto bonito, eu prometo. E nesse dia, eu quero levá-los às lágrimas. Não pela maestria do texto, não, mas porque ele só se fez bonito, porque houve um dia em que meu papel não foi maculado pelo sangue da minha gente.
Dedico o texto dessa semana a alguém cuja escrita sempre me inspirou, e com quem, acredito eu, divido o sonho de textos e Brasis mais bonitos.
O texto dessa semana é dedicado a Sérgio Salomão, Sadan.
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