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SUB-VERSÃO

“Estou esperando meu filho sair dessa lama”

Minas sempre foi, para mim, muito mais que um estado. Minas está impregnada na gente, assim como o cheiro da fumaça do fogão a lenha na roupa, assim como a quentura da prosa, sem demora, à beira dele. Minas é um jeito doce e calmo de ser, é o colocar as palavras para dançar, naquele sotaque musical que só os mineiros têm. Minas é o cafezin sempre à mesa, o pãozin de queijo quentin, o bolin de fubá. Tenho para mim que Minas foi um jeito bonito por demais da conta que Deus inventou pra dizer que não desistiu de nós, brasileiros, não. Que ele ainda acredita tanto na nossa capacidade para a doçura, quanto na nossa força para o trabalho.

E como ele se esmerou em seu trabalho de arquiteto quando idealizou aquelas montanhas... Ah, as montanhas de Minas! As cachoeiras de Minas! O encanto das pedras de São Thomé, de Minas...

O céu, o mar de Minas, segundo Rubem Alves. E eu concordo com ele.

“O Mar de Minas não é no mar

O Mar de Minas é no céu

Pro mundo olhar para cima e navegar

Sem nunca ter um porto aonde chegar...”

Minas é toda beleza, por todo canto e a cada olhar mais demorado que lhe dirigimos. Minas é poesia. Minas é aldravia!

Sou uma apaixonada pelas terras das Gerais, pelo povo que habita e labuta naquela terra, pela gentileza quase inocente desse mesmo povo, que é quase como um lembrete daquilo que em nossa essência mais profunda, deveríamos nós também ser.

E é por isso, que quando ouvi a frase que intitula o texto dessa semana, senti um arrepio percorrer todo meu corpo. E agora, enquanto escrevo essas palavras, posso novamente senti-lo.

“Estou esperando meu filho sair dessa lama”.

E eu chego a pensar que há certas frases que não deveriam nunca de precisar ser ditas.

“Estou esperando meu filho sair dessa lama”.

É um pai quem diz essa frase, que ainda ressoa em meus ouvidos. Não, não é só um pai, é o próprio amor personificado, exigindo, dedo em riste, suplicando, o choro preso na garganta, a presença do ser muito amado. Só o amor é capaz dessa espera.

E é com o meu coração dilacerado que eu espero junto desse pai. E minha espera, não, de forma alguma pode ser comparada à grandeza da espera dele, mas é igualmente desesperadora, porque eu espero pelo dia em que os pais não tenham mais que esperar por seus filhos mortos pelos homens a quem a ganância domina e cega. Eu espero pelo dia em que esse país que amo, não explore seus filhos e sua natureza cegamente, para depois pagar-lhes com a morte. Eu espero pelo dia em que haja justiça nesse país maldito, a quem amo.

E nesse dia, estejam certos, eu verei, com esses olhões repletos de fúria, esperança, revolta, indignação e algum alívio, todos, todos os filhos de Minas ressurgirem, de mãos dadas conosco, dessa maldita lama, que nos mortificou a todos.

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