Quem frequenta as festas do Galpão Busca Vida e lá teve a chance de provar sua famosa cachaça com limão e mel sabe que o lugar, idealizado por Carlos de Oliveira, 63, tem mesmo uma atmosfera diferente que até já lhe concedeu o status de uma das “dez casas noturnas mais diferenciadas do Brasil”, segundo a Revista Trip.
Na época, o “Busca” não tinha a estrutura que se conhece hoje, mas já era possível saber o tamanho do potencial da casa. “Uns 18 anos atrás, a Trip nos ligou para fazer a matéria. Na época, disse que não daria para fazer, pois a revista iria trazer muitos clientes pelo poder que ela tem; eles insistiram e concordei. A matéria saiu em uma revistinha anexa à Revista Trip. Nem preciso dizer que foi a maior aglomeração que tivemos na estrada para chegar aqui, foi uma loucura tantos carros e pessoas chegando e a gente apavorado, pois não tínhamos o planejamento ideal para tanta gente”, relembra o Carlão, proprietário do Galpão Busca Vida, em entrevista ao Jornal Em Dia.
Naquele momento, ele ainda não tinha ideia do sucesso que o Busca Vida se tornaria. Hoje, celebrando 25 anos, mais de mil shows e mais de 400 mil pessoas recebidas, a casa é uma das mais famosas da Região Bragantina e acolhe gente de todas as tribos e de todos os cantos.
A história começa em junho de 1997, quando a família, recém-chegada a Bragança, após o nascimento do filho soteropolitano mais velho, Davi, passou a oferecer, no Sítio Santo Antônio, no Bairro da Serrinha, passeios a cavalo na lua cheia e a volta era celebrada no estábulo – hoje o Galpão Busca Vida – com uma pizza no forno à lenha e uma pinga com mel, que foi o caminho experimental para a cachaça Busca Vida, cuja fórmula nasceu no final do mesmo ano.
À época, sequer havia eletricidade no local e a família tinha de encontrar uma forma de ganhar a vida após chegar de Salvador. A ideia foi se tornando popular e, depois, vieram outras celebrações: a do aniversário de uma amiga e uma festa universitária, durante a qual houve grande consumo da então chamada “pin com mel”. “Depois deste dia, iniciamos a abertura do Galpão todo final de semana com famílias e pessoas que chegavam para consumir a pizza e a pin com mel”, conta Carlão.
Paralelamente, aumentava a busca pela cachaça, uma ideia que também veio da Bahia. “Na época em que moramos em Salvador de 1993 a 1997, voltando da Itália, após a temporada de trabalhos que fazia como cozinheiro na Emilia Romagna, fui convidado a abrir algum negócio no novo Pelourinho que estava para inaugurar, e na companhia de dois amigos, resolvemos que abriríamos uma cachaçaria para mostrar aos estrangeiros a potência da autêntica bebida brasileira, que na época era marginalizada dentro de seu próprio país”, fala.
“Fomos conhecer mais sobre a cachaça, juntamos na época 200 rótulos de diversos produtores no Brasil e abrimos uma cachaçaria no Pelourinho servindo a branquinha em copos de cristais e, trabalhando no serviço, observei que muitas pessoas tomavam a cachaça e faziam cara feia e trocavam de bebida; aquilo me intrigava, tinha que achar uma maneira das pessoas que tomavam uma bebida brasileira ficarem felizes com a iguaria desta mistura de raças, alegria, amor, simplicidade, história que o Pelourinho e o Brasil representam”, completa.
Ali, iniciou-se o processo das misturas para buscar um sabor equilibrado. A missão acompanhou Carlão até Bragança e, após preparar uma bebida para servir em mais um passeio da lua cheia no sítio, “inspirado e feliz”, como se recorda, ele a serviu para um amigo espanhol, admirado pela gastronomia, que aprovou a cachaça e ali já previa o seu sucesso.
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Com a crescente demanda, Carlão buscou a Engenharia de Alimentos da Unicamp para saber como fabricar o produto para comercialização. Ali, fechou uma parceria com uma empresa júnior, com estudantes assessorados por professores, para dar início a um longo processo. “Em um primeiro momento parecia ser fácil, mas, na realidade, foram três anos e meio de estudos, testes e possibilidades; o tempo ficou longo pela exigência irrestrita para que fosse natural, sem produtos artificiais”, diz.
Depois, o desafio foi conseguir o registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o Mapa, para então poder vendê-la. “Depois de meses, conseguimos; o problema era que não se enquadrava em nenhuma categoria existente para bebidas alcoólicas no Mapa; então foi preciso criar esta nova categoria (bebida alcoólica mista de cachaça, limão e mel, hoje chamada apenas de bebida alcoólica mista). A Busca Vida abriu uma nova categoria de bebidas no Brasil. Depois, o próximo desafio foi ter selo na Receita Federal; foram mais alguns meses até podermos realmente colocar no mercado para venda e consumo”, comenta.
A pequena vila de Caraíva, na Bahia, frequentada pela família por mais de três décadas, foi outra “estação experimental” para a cachaça ao longo do tempo. “Foi um local de testes, de aprovações e provações, de criação, de experiências com amigos e turistas”, explica Carlão. Lá, a família realizou parcerias, festas, teve um bar e, depois, uma cachaçaria. Em 2012, abriu uma cachaçaria em Trancoso e, recentemente, encerrou uma temporada de três anos à beira do Rio Caraíva. Ao todo, foram três temporadas que reuniram mais de 6.500 visitantes.
Hoje, são cerca de 12 mil litros produzidos por mês e, por meio de uma distribuidora, a cachaça está disponível em todo o território nacional, levando o nome de Bragança Brasil afora. Apesar de ainda não haver distribuição própria a nível internacional, é possível encontrar a iguaria em vários países que representam e vendem produtos brasileiros. Mas sem dúvida, o melhor lugar para saborear a bebida é a casa que leva o mesmo nome e que é parada obrigatória na cidade: o Galpão Busca Vida.
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A CASA
O Galpão Busca Vida já recebeu, nestes 25 anos, grandes nomes da música brasileira, incluindo Paula Lima, Céu, Arnaldo Antunes, Moraes Moreira, Martnália, Zeca Baleiro, Paulinho Moska, Elba Ramanho, Leo Jaime, e bandas como Nação Zumbi, Cachorro Grande e Velhas Virgens, além de sempre abrir espaço para talentos regionais.
Tom Zé, um dos artistas que por lá passaram, apelidou o Galpão de “estação orbital”. Carlão conta, também, que alguns dos frequentadores o chamam de “casa de cura”, por conta da energia quase mística ali existente. “Sentimos que de alguma forma estas pessoas saem diferentes daqui, algumas chegam a dizer que são impactadas para uma forma diferente de encarar e corrigir a realidade”, explica.
A cada sábado, Carlão afirma que o “Busca” recebe clientes de 17 localidades diferentes e entre 40% a 50% de pessoas vindas pela primeira vez. Além dos shows e da famosa cachaça, a casa serve pizzas artesanais feitas no forno à lenha e drinks diversos. Completa o portfólio a cachaça pura Tico Rosa – uma homenagem aos avós Dona Rosa e Seu Tico – e, em breve, a casa deve lançar a Caipirinha Rural, um drink natural com o açúcar e o limão brasileiro, e um drink com jambu, planta paranense que deixa os lábios adormecidos, sob a marca Flower Power.
E um fato curioso é que lá a festa só acaba depois de tocar... o hino nacional – uma tradição de anos. “Teve uma vez, logo no início do Galpão, ainda em 1997/ 98, terminando uma noite colocamos um CD para tocar que chegou ao final e, depois de um tempo, começou a tocar o hino nacional brasileiro, as pessoas cantaram felizes e depois todos saíram e, a partir deste dia, o fechamento do Galpão é depois disso. Com isso, ganhamos várias versões de hino, de artistas e amigos que mesclamos a cada sábado”, relata.
A decoração inusitada, outro ponto alto do Galpão, segundo Carlão, não foi planejada – foi tomando forma aos poucos. O local, que antes era uma leiteria, estava sem uso e cheio de “tralhas” em 1997 e, de início, muita coisa foi usada, como móveis antigos e sobras de decoração que ganhava de amigos. “Muitos mandavam e mandam até hoje presentes para o Galpão. Sempre impermanentes, muitas obras chegaram se foram e este ciclo se renova de tempo em tempó”, entrega.
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Além do Galpão Busca Vida, os visitantes têm acesso a um verdadeiro “complexo” de atividades na fazenda que abrigava a antiga leiteria da família. O espaço transformou o Bairro da Serrinha, onde antes, segundo Carlão, passavam cerca de cinco carros por semana. “Agora, lutamos por nosso bairro, por nossas raízes, pelo nosso conforto, por nossa mobilidade rural, por nosso lazer, nossa arte, nosso ambiente todo, não só pelo meio ambiente”, destaca.
Depois do Galpão, ele conta que surgiu a necessidade de ter espaços para receber amigos, clientes e artistas que lá chegavam. A pequena casa antiga dos avós foi se transformando na Hospedaria Rural, administrada hoje pelo filho mais velho. Chiqueiros de porcos, oficina e local para guardar suprimentos foram dando espaço a “quartinhos reciclados e aconchegantes”.
Em 2002, veio a criação do restaurante Cà de Mezz Amig, que representa a autêntica gastronomia Romagnola, lugar em que a família morou e onde nasceu o filho mais novo, Leo. “Todos os utensílios, equipamentos e decoração vieram da Itália para podermos ser de verdade. A farinha que usamos para produzir as massas são grãos argentinos moídos especialmente para nosso restaurante e as pizzas do Galpão”, pontua Carlão.
Em 2004, foi criado o Teatro Rural, ainda em fase de acabamento, que já recebeu peças e shows musicais, como o de Ney Matogrosso, além de atrações do Festival Arte Serrinha. Há, ainda, o Casarão Dois Irmãos, um antigo projeto arquitetônico do bairro que corria risco de ser demolido, mas foi comprado e preservado para também servir como um ponto cultural.
A fábrica da Busca Vida, aberta ao pública mediante agendamento, para visita e compra da cachaça com preço reduzido, completa o espaço. Desde 2006, o “Busca” também recebe eventos como casamentos e aniversários.
Com 25 hectares, o sítio está localizado à beira da represa, cercado de verde e preservação permanente, tendo realizado diversas ações sustentáveis como o plantio de mais de 8 mil mudas pioneiras. Pelo novo Plano Diretor da cidade, a Serrinha foi contemplada Zepan (zona especial de proteção ambiental) e Zepec (zona especial de proteção cultural).
RELEVÂNCIA
A história do Busca Vida se mistura a outras muito importantes para a cena cultural de Bragança Paulista, como é o caso do Festival Arte Serrinha, do qual Carlão foi um dos fundadores, em 2002. O núcleo irradiador das atividades se divide entre a Fazenda Serrinha e o Sítio Santo Antônio, onde funciona o Galpão. “O Arte Serrinha nasceu da ideia, juntamente com os irmãos Fábio e Cecel de convidar amigos, artistas e colaboradores para uma vivência na zona rural, juntando arte, ambiente, simplicidade, amor, alegria e mesclando multidisciplinas, tentando comtemplar as várias vertentes da arte cultural e ambiental”, fala Carlão.
No começo, o festival dispunha de poucos recursos, mas a ideia cresceu e se consolidou e hoje, o evento, que mistura arte e natureza, faz parte do calendário cultural da cidade, convidando a uma pausa na rotina contemporânea – um silêncio criativo e um mergulho em busca de valores essenciais. Sem interferências ou perturbações, a Serrinha se abre para a criação em um laboratório aberto a experiências artísticas.
No Teatro Rural e no Casarão, o “Busca” já sediou também o Projeto Rota das Artes – o qual apoia até os dias de hoje e participa da captação de recursos com a Busca Vida. Além disso, a marca apoia dez atletas de Bragança, nas modalidades nas áreas de skate, escalada, rally, mountain bike e BMX, ofertando inclusive pistas para treino.
OLHANDO PRA TRÁS
Quando olha pra trás, Carlão vê um filme passar em sua mente e parece não acreditar na proporção que as coisas tomaram. Os planos mudaram, o sonho cresceu, mas, em essência, o Galpão continua o mesmo. “O que levamos em consideração até hoje é o fato de estarmos atentos o tempo todo aos desafios de poder continuar como nascemos, na simplicidade, com qualidade, não cair na tentação de crescimento e transformação pelo capital, manter a equipe família Busca Vida, ter qualidade em som, luz e atrações, dando oportunidades a novos artistas, reutilizar tudo que for possível, ter preço justo e acessível, ser aberto a todos e para todos, sabermos que estamos aqui para servir”, reflete. Ele não se considera o “dono” e, sim, um dos pilotos desta “estação orbital” feita pela energia das mais de 400 mil pessoas que por lá passaram.
Por muitos anos, não houve sequer uma placa indicativa de como chegar ao lugar, mas, curiosamente, as pessoas sempre chegavam, recomendavam e voltavam – e tudo isso, Carlão garante, sem investir um centavo em publicidade. “Foi no boca a boca que realmente crescemos, todos que aqui chegavam levaram para casa uma forma diferente de estar; digo que quando estamos inseridos na zona rural, temos oportunidades reais de desenvolver nossos sentidos originais, aqueles que vêm com a gente quando nascemos, e que guardam memórias que normalmente são lembradas quando as praticamos com harmonia e prazer – e aqui sentimos isso. Depois, passamos estas experiências reais a amigos e pessoas que gostamos”, declara.
Ao fazer um balanço dessa trajetória, Carlão destaca que os avós, Seu Tico e Dona Rosa, que construíram o espaço sem ter noção do que ele poderia representar, certamente se orgulhariam de todos os eventos, alegrias, emoções e amores vividos nestas duas décadas e meia de Busca Vida. “Eles só queriam tirar o leite das vaquinhas, penso também que se realmente o amor ao que a gente faz e proporciona alegria a outras pessoas com certeza este retorno se torna presente”, afirma.
Seu desejo é que o “Busca” continue sendo “um símbolo de simplicidade, autenticidade e vivência” para todos que lá consigam chegar. “Que experimentem o espaço e o entorno; deixem pegadas e levem sentimentos bons que transcendam a dinâmica da vida do sistema, que sintam a oportunidade e a possibilidade de mudar algo dentro de si e perto de si”.
COMEMORAÇÕES
E, para comemorar estes 25 anos de muita história, o Busca Vida está realizando uma série de shows especiais. Neste sábado, 4, o cantor e compositor Chico Chico sobe ao palco da casa para animar a noite festiva com seu primeiro disco solo, “Pomares”. No dia 11, Tibless canta Jorge Bem. Outras atrações serão divulgadas em breve.
Neste mês, acontecem também os jangais rurais, as tradicionais festas juninas do “Busca” com bandas de forró e barracas de comidas e bebidas típicas. Em julho, o Festival Arte Serrinha celebra 20 anos e o Galpão receberá os artistas Cynthia Luz, Raquel Coutinho, Bala Desejo e Otto.
A casa ainda lançou, nas redes sociais, um concurso cultural para escolher um logotema em celebração ao aniversário. A arte escolhida foi a do designer Robson Helton, mas outros dois finalistas também foram premiados.
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A todos os amigos, clientes e fãs do Busca Vida, Carlão deixa um convite especial. “Que nossa celebração chegue a vocês onde estiverem, dentro de uma cápsula sutil, na qual sua imaginação irá abri-la, e que você sinta a pura delícia da busca pela vida; é o que praticamos e que seja acolhedora e cheia de amor”, conclui.
Confira toda a programação e saiba mais sobre a casa no site: https://galpaobuscavida.com.br/ ou na página do Instagram: @galpaobuscavida.
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