O que você vai ser quando crescer? A pergunta feita pela professora às vésperas da cerimônia de formatura do Ensino Fundamental não me assustou em nada, eu sempre soubera o que queria ser quando crescesse: jogadora de futebol, claro.
Mas essa decisão, tomada tão precocemente, obviamente mudara com o passar dos anos. A paixão pelo futebol, não, visto que ainda hoje, aos 39, me divirto toda vez que convidada/intimada pelo meu sobrinho para uma partida.
Meu shorts azul, presente pedido ao Papai Noel não me serve mais. Muitas coisas, aliás, já perderam espaço em minha vida. Crescer traz consigo grandes perdas, não é mesmo?
Em contrapartida, ganha-se alguma experiência, como aquela que adquiri ao tentar descer as escadas recém-cimentadas da casa da minha infância com a bola de futebol entre as pernas gorduchas.
Mas... Voltando à questão que justifica e inicia esse texto, sim, no fundo, eu sempre soube o quer seria. O grande desafio de viver é transformar-se naquilo que se é.
Eu quero ser escritora, disse à professora. E no segundo seguinte a essa afirmação, já estava mortalmente arrependida dessa minha resposta. Não porque não fosse o que queria realmente, mas porque soava arrogante da minha parte.
Como pode, uma menina de quatorze anos e muito poucas certezas, querer ser escritora. É muita pretensão!
Para piorar meu constrangimento, vim a saber mais tarde que tal informação seria compartilhada com todos os presentes, via microfone, quando da minha entrada.
Como é que eu tinha sido capaz de produzir aquelas palavras? A menina gorducha e tímida, que sim, adorava as aulas de Produção Textual, queria ser escritora, então? Previsível, e ao mesmo tempo, audacioso demais.
A resposta era sim. Ainda hoje é sim. Mas, confesso que ainda carrego parte da insegurança daquela menina de outrora. Às vezes, e isso por que nos foi ensinado assim, ainda receio afirmar que sou escritora.
Durante muito tempo escrever foi dádiva exclusiva dos agraciados por um dom maior, eruditos, homens incrivelmente cultos (sim, especifica e exclusivamente homens), quase que seres etéreos, inalcançáveis.
Mas e para onde então iria todo o meu amor pelas palavras? O meu ódio pelas palavras... O que eu faria com todos os versos que surgem e exigem serem escritos? Onde esconder minha dor?
Escrever não muda nada, eu sei. Mas como é que se faz para não escrever?
Na ASES, Associação de Escritores de Bragança Paulista, sob as asas dela, encontrei alento e refúgio para meu dilema de sempre aspirante à escritora. Estava tão nervosa quanto estivera na noite da minha formatura, após tomar conhecimento de que meu aparente segredo seria revelado, quando finalmente criei coragem e aceitei o convite da talentosa e querida escritora Henriette Effenberger para conhecer a associação.
Ainda custo a me reconhecer como um deles, confesso, mas a generosidade com que fui recebida e aceita me compele a continuar, tal qual uma estranha no ninho. O amor pela literatura é que nos une, e somos tão diversos! A diversidade enriquece nosso convívio e nossas produções literárias. É de fato um privilégio fazer e me sentir parte dessa turma tão talentosa e comprometida com a cultura em nossa cidade.
Terça-feira passada, no Dia do Escritor, nos reunimos para uma pizza. A jogadora de futebol talvez tivesse recusado o convite; a escritora, não. E que noite deliciosa!
Sou as duas, sigo tentando articular as palavras, com a ginga de um craque, como quem visualiza a jogada antes mesmo da bola tocar o pé. Elas sempre me vencem, me driblam com todo o seu melindre... E eu me rendo. Minha sorte é orgulhosamente pertencer a esse timaço, chamado ASES!
Meu desejo é que sigamos batendo um bolão!
Feliz Dia do Escritor, meus queridos! Que vocês possam seguir tentando me convencer da escritora que sou e da que sigo tornando-me, graças a todo o aprendizado que tenho ao lado dos mais incríveis e generosos escritores!
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