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Educação

Ensino on-line: professores compartilham experiências no ambiente virtual

Em tempos de pandemia, a reportagem ouviu três professores que estão se adaptando às novidades e aos desafios do ensino on-line, imposto pelo distanciamento social

Que a pandemia do coronavírus afetou a rotina de muitos profissionais não é novidade para ninguém. Porém, em alguns casos, como em trabalhos administrativos, muitas pessoas vêm se adaptando à cada vez mais crescente tendência do home office. Mas o que fazer quando se é habituado ao intenso convívio e interação social com dezenas de alunos e colegas, jornadas duplas – e às vezes triplas – em várias escolas e, principalmente, o contato físico que favorece e facilita a aprendizagem?

Este tem sido o dilema da vida de muitos professores em todo o mundo com a pandemia da Covid-19 e as restrições impostas pelo distanciamento social, que no momento, é a principal ferramenta usada por governos e autoridades de saúde para conter a disseminação do coronavírus. Com a quarentena, decretada no estado de São Paulo pelo governador João Doria em 24 de março, escolas públicas, particulares, técnicas e universidades ficaram vazias e o ensino on-line pegou professores e estudantes de surpresa.

Apesar de muitos alunos e docentes já estarem familiarizados com redes sociais e outras facilidades da Internet, na prática, aprender e ensinar têm sido um desafio para muita gente. Isso porque, apesar da comodidade do home office, essa modalidade pode exigir disciplina em dobro para ser conciliada com as tarefas domésticas – além, é claro, dos problemas que podem vir com a tecnologia – instabilidades na conexão, à qual nem todos têm acesso, pouca familiarização com ferramentas digitais, excesso de informações e muitos outros.

Agora que a lousa e o giz deram espaço ao advento da tecnologia, os cumprimentos são virtuais e a distância se apresenta como uma aliada do conhecimento, professores e alunos tentam se adaptar à nova rotina e buscam as melhores ferramentas para assistir a videoaulas, realizar exercícios e conciliar as múltiplas tarefas da vida pessoal e profissional.

A reportagem do Jornal Em Dia ouviu três professores que vivem realidades diversas, mas hoje, têm algo em comum: a busca pelo “jogo de cintura” para prender a atenção dos alunos e transmitir conhecimento no ambiente virtual. Ana Raquel Fernandes, Wander Cardoso e Fred Zenorini, contaram como estão se sentindo, quais as mudanças em suas rotinas, expectativas para o futuro da educação e a importância desse novo método para conter a pandemia do coronavírus. Confira!

ANA RAQUEL FERNANDES, 35 ANOS

A professora Ana Raquel Fernandes, de 35 anos, está buscando formas de se reinventar diante do ensino on-line imposto pela pandemia do coronavírus. Com o distanciamento social, Ana Raquel sente na pele as dificuldades e as novidades trazidas pela modalidade, tanto na vida pessoal como na vida profissional.

Formada em Licenciatura Plena em Letras (Português-Inglês) e em Pedagogia, Ana é pós-graduada em Transtornos Globais do Desenvolvimento, Gestão Escolar e em Práticas de Letramento e Alfabetização, pela UFSJ (Universidade Federal de São João Del Rei). No entanto, sua extensa formação acadêmica não a preparou para o desafio de ensinar a distância: agora, ela busca se adaptar a uma nova rotina e encontrar formas eficazes de ensinar, em uma ferramenta ainda pouco democrática.

Professora há cerca de 17 anos, ela leciona há 14 anos no município de Vargem, onde trabalha como professora de Educação Básica II na E.M.E.F. Sargento Sebastião José Monteiro. Antes da pandemia, Ana Raquel viajava todos os dias e tinha intenso contato com o ambiente escolar. “Viajava diariamente para Vargem, onde leciono, no período da manhã. Tinha contato com cerca de 130 seres humanos todos os dias. Podia atendê-los em suas dúvidas face a face e até adivinhar-lhes as dúvidas, podia perceber suas reações sempre tão espontâneas, agora, não”, relata, acrescentando que sua rotina mudou completamente desde então. “[Mudou] absolutamente tudo, desde os detalhes mais simples do cotidiano, como o fato de eu ter de me locomover até a cidade vizinha, como, obviamente os esforços para tentar atingir o maior número possível de alunos, agora a distância”, pontua.

Em todo esse tempo de profissão, Ana relata que nunca havia vivenciado situação parecida à atual, o que vem requerendo um grande esforço por parte dos professores. “Esse ineditismo trouxe muita ansiedade para a classe dos professores. No entanto, e eu vejo esse sentimento em todos os meus companheiros de profissão, temos feito de tudo, inclusive além do que nos é exigido, para tentar oferecer o melhor aos alunos nesse que é um momento difícil para todos”, entrega.

Além de usar as redes sociais, Ana Raquel criou um canal no YouTube para tentar se aproximar dos alunos e criar conteúdos educativos nesse momento. “Tenho gravado vídeos e os postado também no Facebook, bem como compartilhado nos grupos do WhatsApp, por onde também recebo e esclareço as dúvidas dos alunos”, conta.

Apesar dos esforços conjuntos, em sua visão, essa metodologia de ensino é excludente e seu principal desafio está na desigualdade. “A desigualdade de acesso à internet e às tecnologias que dela se utilizam, porque nós professores, ou pelo menos a maioria de nós, não se intimida em fazer uso das tecnologias, nem tampouco se nega a ‘reinventar-se’, a questão é ainda a desigualdade que impera em nosso país e atinge também o acesso às informações. E digo mais, a pandemia não criou a desigualdade, ela só a evidenciou. Sabemos que muitos alunos não terão acesso às informações disseminadas por esse meio, então, a meu ver, eles estão sendo privados da prática educacional nesse momento”, defende.

Para ela, a falta de preparo para essa nova realidade é outro fator negativo. “Todas as escolas, sejam elas municipais, estaduais ou do setor privado foram surpreendidas por essa situação atípica e se defrontaram com seu próprio amadorismo ao lidar com a situação. Colegas que lecionam no estado, por exemplo, descrevem cobranças excessivas, falas controversas e total amadorismo por parte dos gestores na gestão do chamado ensino a distância. O professor tem trabalho o dobro pelo mesmo, e ainda é criticado. Haveria vantagens se todos, todos os alunos indistintamente tivessem acesso a esse ensino e ele já estivesse devidamente estruturado, coisa que não está acontecendo”, avalia.

No seu caso, em especial, ela conta que os alunos possuem uma vantagem com relação ao material fornecido. “O município de Vargem, preocupando-se com o fato de que alunos, principalmente oriundos da zona rural não têm acesso à internet, disponibilizou apostilas impressas elaboradas por nós, professores, a eles. Então, minha experiência tem sido através dos vídeos explicativos sobre os conteúdos dessas apostilas”, diz.

Apesar disso, ela sente falta do contato humano, tão presente em sua rotina antes da pandemia. “É um contato frio, distante, ao qual falta certa humanidade. Como diria o grande Paulo Freire: ‘Aprendemos uns com os outros, no contato com os outros’... Essa proximidade, apesar de inviável nesse momento, faz muita falta e toda a diferença. Sinto falta do contato com aqueles seres humanos tão especialmente únicos com quem mais aprendo que ensino”, afirma.

Na vida pessoal, ela diz que é preciso ter cuidado redobrado com a flexibilidade para não prejudicar o rendimento no trabalho. “Estabeleço uma rotina de horários e atividades, que procuro seguir com certa rigidez para não correr o risco de me deixar levar pela certa flexibilidade que o trabalho em casa oferece e me negligenciar”, fala.

Apesar dos múltiplos desafios, ela não acredita que o ofício do professor seja mais valorizado no futuro. “Hoje, mais do que nunca, a importância do professor emerge na sociedade, porém, e afirmo isso com muito pesar, acho difícil que num país como o nosso, desprovido de memória, que a profissão passe a ser mais valorizada após esse período”, declara.

Além de valorizar o fundamental papel do educador, Ana Raquel acredita que a Educação só será efetiva e democrática quando houver igualdade de oportunidades. “O sonho da educação para todos, com a mesma qualidade, perpassa pelo sonho de uma sociedade mais justa e igualitária, ousar sugerir fórmulas mágicas, além de não ser nada realista, é desonesto. Enquanto tivermos uma nação tão absurdamente desigual, é impossível ter educação para todos e com a mesma qualidade. A educação caminha de mãos dadas com a sociedade, por ela se molda e influencia. Sendo assim, se realmente queremos uma educação para todos, precisamos colocar todos em nossas contas”, opina.

Para a professora, a pandemia vem promovendo reflexões sobre questões muito recorrentes na Educação, especialmente no que diz respeito à retomada das atividades presenciais. “Um assunto que obrigatoriamente vem à tona quando pensamos na retomada às aulas presenciais é de fato recorrente na educação: a redução do número de alunos por sala. Essa sempre foi uma reivindicação dos professores, e no mundo pós-pandemia, será urgente pensá-la, pois simplesmente não poderemos acumular 40, 50 alunos numa sala de aula, oferecendo-lhes e a nós também, risco à saúde”, argumenta.

Por fim, Ana Raquel deixa uma mensagem sobre a importância da parceria entre escola e família para que, juntos, possam superar esse momento. “Eu me solidarizo com os pais que têm encontrado dificuldades em auxiliar seus filhos, reafirmo a importância do papel deles e peço, além de sua colaboração, a paciência necessária num momento tão delicado quanto esse que estamos vivendo. Esse momento só vem reafirmar a importância da parceria família-escola, que deve continuar pós-pandemia, porque sim, ela vai passar, mas o compromisso com o desenvolvimento sociointelectual de seus filhos, não. Da nossa parte, ele só está se reafirmando”, conclui.

WANDER JEFERSON CARDOSO, 32 ANOS

Aos 32 anos, o professor de Geografia e coordenador pedagógico Wander Jeferson Cardoso, também formado em Pedagogia e pós-graduado em Psicopedagogia,tinha sua rotina profissional baseada no ambiente escolar. Wander leciona há 12 anos e, atualmente, é professor dos anos finais do Ensino Fundamental na E.M.E.F. Othília Fornari de Lima, em Pinhalzinho, e professor coordenador da E.E. Dr. Fernando Amos Siriani,  pertencente à Diretoria Regional de Ensino de Bragança Paulista, comandada por Rosângela Almeida Valério.

Antes da pandemia, se dividia entre as duas cidades e tinha uma intensa rotina de contato com os alunos. ”Minha rotina, em sua maior parte, era voltada para o desenvolvimento de atividades pedagógicas no próprio ambiente de trabalho”, conta, revelando que esse cenário mudou completamente com a adoção do trabalho remoto. “Houve uma grande mudança nas atividades pedagógicas da escola, tendo em vista que não há a aglomeração de pessoas”, completa.

Em mais de uma década de profissão, Wander conta que não se recorda de ter vivido situação semelhante a essa. “Me lembro do surto da H1N1, em que as aulas foram suspensas um determinado período, mas não se compara à atual situação”, revela.

Hoje, para se comunicar com alunos e professores, ele utiliza diversas ferramentas virtuais, sobretudo, as redes sociais. “Elas são fundamentais para a propagação das atividades desenvolvidas na escola. Temos utilizado um blog, Facebook, WhatsApp, e-mail e Google Meet. Tentamos utilizar várias ferramentas e redes sociais para atingir nossos alunos”, afirma, ressaltando que essa linguagem multimídia permite aos professores se reinventar. “O importante nesse momento é poder conciliar o pedagógico com o socioemocional; os professores estão se reinventando e os resultados estão sendo positivos nesse aspecto”, acrescenta.

Para Wander, há prós e contras provocados pelo ensino on-line. “Os principais desafios são o alcance dos alunos, acesso as tecnologias para o desenvolvimento das atividades, e as questões socioeconômica e socioemocional. Já a vantagem está na utilização de novas ferramentas para o desenvolvimento pedagógico e empenho dos docentes para se adequar a elas”, pontua.

Um dos principais obstáculos mencionados por Wander é o fato de esse método não ser essencialmente democrático. “O acesso a essas ferramentas, por parte dos alunos, não é apenas uma questão pedagógica, temos que levar em consideração as dificuldades enfrentadas pelas famílias para acessar os canais oferecidos. Nem todos têm as mesmas condições de acesso às plataformas oferecidas pela escola, mas é necessário ter um olhar amplo quanto as questões sociais, econômicas e pedagógicas, para que todos possam compartilhar das mesmas condições de ensino. O aluno não pode ser prejudicado pelo fato de não ter acesso às tecnologias. É importante que a escola, juntamente com seus órgãos superiores, crie meios de atingir o máximo de alunos e, para os que foram prejudicados, seja feita uma retomada para que ele possa adquirir as habilidades necessárias para o seu desenvolvimento”, comenta.

Aos profissionais, uma das dificuldades enfrentadas é conciliar os afazeres domésticos, a rotina pessoal e o home office, o que pode acarretar na perda de desempenho no trabalho. “Tento estabelecer uma rotina para que o desenvolvimento das atividades relacionadas ao meu trabalho não seja afetado pelo fato de estar em casa. A adequação do profissional ao home office deve levar em consideração uma rotina de atividades e elas não podem ser influenciadas pelo fato de estar em casa”, pondera.

Por saber os desafios enfrentados pelos professores, como coordenador, Wander tem tentado oferecer suporte aos docentes e alunos e buscar formas de gerir essa “nova” forma de se educar. “Eu tento, da melhor forma possível, oferecer aos professores a formação sobre as ferramentas tecnológicas, desenvolvimento de estratégias para alcançar os alunos e oferecer dentro das nossas possibilidades uma educação de qualidade, além do apoio para que possam desenvolver seu trabalho com tranquilidade e qualidade”, conta.

Apesar das angústias trazidas pelo período, Wander afirma que essa situação pode trazer mudanças positivas em vários aspectos. “De certa forma, me sinto angustiado pelo fato de trabalharmos com um grande número de alunos, mas ao mesmo tempo, vejo esperança no trabalho desenvolvido pelos profissionais da educação que estão se superando e se adequando com esse formato educacional. Dias melhores virão e essa pandemia nos fez analisar muita coisa, não só relacionada ao trabalho, mas ao lado socioemocional”, opina.

Esses aprendizados no universo virtual devem ser incorporados ao ofício do professor, mas ele acredita que não substituirão o ensino presencial. “O ensino on-line pode ser utilizado como ferramenta de aprendizagem, mas nada substitui o professor. O professor não é só transmissor de conteúdo: ele pode ser um amigo, pode ser um refúgio, uma palavra de apoio e motivação ou até mesmo um pai ou uma mãe. A função do professor vai além de ensinar”, defende.

Sobre isso, aliás, ele espera que haja uma valorização contínua. “Apesar de vivermos em uma sociedade em que o professor é desvalorizado, essa pandemia reforçou a importância do professor na formação do cidadão. Espero que essa valorização seja contínua e não momentânea”, diz.

Apesar de todas as mudanças que o ensino on-line está envolvendo, Wander sabe que a retomada das atividades deve ser feita de forma cautelosa e gradativa. “A partir da retomada das aulas presenciais, será realizada a retomada de habilidades prioritárias para que os estudantes não sejam prejudicados”, fala, desejando força, união e otimismo aos seus colegas, alunos e familiares para enfrentar esse período. “Vamos ser fortes nesse momento que estamos passando. Nunca a escola precisou tanto da família como agora e nunca a família precisou tanto da escola. Tudo isso vai passar e precisamos em conjunto – escola e família – aprender a nos adequar às adversidades e trabalhar em parceria para que haja uma melhoria na sociedade. Juntos, vamos superar”, encerra.

FRED ZENORINI, 39 ANOS

Estar conectado com os alunos e transmitir informações on-line já era uma tarefa comum para Fred Zenorini, de 39 anos, professor há 17. Graduado em Engenharia de Produção, com licenciatura em Física e mestrado em Engenharia de Produção pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), Fred já tinha experiência com produção de conteúdos on-line, principalmente no YouTube, onde ele mantém o canal “Física no Fusca”, em que ensina Física de forma divertida dentro de seu fusca, o Trovão Azul.

Em seu canal, disponibiliza diversas videoaulas gratuitas com os mais diversos propósitos, para alunos do Ensino Fundamental, Médio e Superior, além de dicas para professores. Apesar de familiarizado com as redes sociais, trabalhar 100% dentro de casa tem sido uma novidade para Fred, que é professor de Física e coordenador de Ciências da Natureza e Matemática na escola particular Viverde, em Bragança Paulista, e professor nos cursos de Engenharia da Unifaat, em Atibaia.

Com todas essas funções, a rotina do professor e coordenador era, antes da pandemia, pra lá de agitada: ele se dividia entre aulas nas escolas e na faculdade, orientações de projetos de pesquisa, reuniões com professores e produção de conteúdos digitais para o projeto “Física no Fusca”, que hoje conta com um canal no YouTube (youtube.com/fisicanofusca), um site próprio (fisicanofusca.com.br) e páginas nas redes sociais (@fisicanofusca). Agora, ele segue conciliando todas as tarefas, mas no sistema home office, também chamado de teletrabalho.

Para Fred, é preciso separar o que se vive hoje na Educação do que de fato é um projeto de Ensino a Distância. “Um projeto de EaD é pensado para este fim, tem metodologia própria, tem um público-alvo específico e pode funcionar muito bem em determinados contextos de aprendizagem. O que vivemos hoje nas escolas e universidades que trabalham com ensino essencialmente presencial não é EaD, é o ensino on-line. Estamos trabalhando com aulas on-line por ser atualmente a única forma de trabalho possível, o que é diferente de um projeto de EaD, opina.

E, no ambiente on-line, o professor conta que vem encontrando alguns desafios – os maiores deles ligados ao convívio social. “As instituições de ensino são, principalmente, um ponto de convivência. E a maior parte do que se pode aprender em uma escola vem desse lugar de encontro. Os maiores desafios vêm daí. O que mais buscamos hoje são formas de ‘humanizar’ a experiência das aulas on-line para que as perdas da falta de convivência presencial sejam minimizadas”, comenta.

Para driblar essa questão, Fred busca maneiras de humanizar as aulas e estar mais próximo dos alunos. “É importante deixá-los o mais à vontade possível no ambiente virtual. Intercalar momentos de descontração ao longo de uma aula on-line é fundamental. Conversar um pouco sobre como estamos nos sentindo nesse período de isolamento, por exemplo. E no formato de aulas que estamos tendo, com todos com as câmeras ligadas, ao menos podemos nos ver durante as aulas. Isso ajuda bastante na aproximação”, diz.

Apesar das dificuldades, o criador do projeto “Física no Fusca” acredita que é possível extrair diversas vantagens a partir dessa metodologia. “Quando trabalhamos com as aulas on-line, a nossa casa se torna a sala de aula. Parece estranho, mas isso pode ser uma grande vantagem. A minha esposa, que é professora de Biologia, já deu diversas aulas práticas de Botânica usando as plantas dela, daqui de casa. Eu já dei aulas de Calorimetria (uma área da Física que estuda o calor) usando meu fogão, minha chaleira, além, é claro, do meu fusca que estava aqui na garagem. Numa aula de um projeto de Cultura Maker para meus alunos do nono ano, que envolvia formas antigas de ouvir e compartilhar músicas, pude mostrar para eles minha vitrola, meus discos de vinil e as minhas fitas cassete”, descreve, enfatizando a importância das videoaulas.” A outra vantagem vem da possibilidade de você gravar uma aula e os alunos poderem assistir quantas vezes quiserem ou precisarem. As videoaulas, quando bem exploradas, são um recurso didático poderosíssimo, principalmente quando associadas a bons materiais didáticos e nas mãos de bons professores”, pontua.

Os pontos positivos tornam a experiência mais interessante, mas infelizmente, nem tão democrática. “Essa forma de ensino não é nem um pouco democrática, muito menos justa. Diferentemente do que a recente propaganda do MEC (Ministério da Educação) sobre o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) tentou mostrar, a maior parte dos estudantes brasileiros não conta com recursos e estrutura suficientes para estudar on-line. Faltam dispositivos adequados, como computadores, falta internet, falta espaço. É difícil sugerir algo que não passe por uma mudança estrutural. É preciso que o poder público perceba de uma vez por toda que os investimentos em Educação têm que ser maiores e mais certeiros. Pro período atual, por exemplo, estudantes e professores deveriam ter acesso gratuito a computadores e internet”, pondera.

O comprometimento dos alunos, ele acredita, também é fundamental para que o ensino possa ser eficaz. “É preciso ter consciência de que os alunos são os principais protagonistas do seu processo de aprendizado, principalmente quando vão ficando maiores. E isso tem aparecido de forma bastante positiva no ensino on-line”, avalia.

Apesar de estar se saindo bem na missão de ensinar on-line, Fred acredita que essa tendência não será implementada de forma integral no futuro, mas sim, uma maneira de complementar o aprendizado. “Acredito que nada pode substituir as aulas presenciais. Ao mesmo tempo, penso que as ferramentas on-line podem ser utilizadas como poderosas aliadas no ensino presencial. Talvez essa seja a maior herança do período da pandemia para a área da Educação. Mas é preciso ter bastante critério ao avaliar a utilização destes recursos. Os professores sempre devem estar na linha de frente desse processo, da escolha dos melhores materiais didáticos, sejam eles impressos ou digitais”, observa.

Quanto à retomada das atividades, Fred admite que é preciso haver cautela. “Os governos não devem se precipitar neste sentido, até porque já vimos que alguns países tentarem reabrir as escolas precocemente e tiveram que fechar. Penso que ao retomarmos as aulas presenciais, devemos levar em conta o seu papel essencial: a convivência. Muitos dias de ‘volta às aulas’ devem ser dedicados às atividades que favoreçam a convivência”, afirma.

Ele espera que o papel do professor saia fortalecido no cenário pós-pandemia. “A minha grande esperança é que a nossa profissão seja mais valorizada ao final deste período. Espero que o mesmo aconteça com os profissionais da Saúde. No entanto, nossa profissão tem sofrido com anos e anos de desvalorização. E a situação atual tem ajudado a mostrar como é difícil ensinar. Exige muito preparo, estudo e dedicação. Para ensinar bem, é preciso planejamento e uma conexão muito forte com o mundo atual, em diversos aspectos: social, cultural, natural. Gosto de dizer que professor é profissão, não é missão. Quem escolheu ser professor escolheu uma profissão e deve ser respeitado como tal”, defende.

Consciente do atual momento e da importância vital de sua profissão, Fred encerra com uma mensagem para pais e alunos sobre a importância desse método, apesar das dificuldades, já que o isolamento social é fundamental para conter o avanço da pandemia. “Aprender é trabalhoso, mas é a ação mais importante da nossa vida. Hoje essa situação adversa está nos ensinando muitas coisas. A principal delas está nessa convivência limitada e, ao mesmo tempo, diferente, que estamos experimentando. Famílias, estudantes, professores, escolas... Todos fazemos parte de uma mesma comunidade que tem um único objetivo em comum: ensinar. Mais do que nunca, neste momento, devemos ter paciência e sermos solidários uns com os outros. Sairemos dessa melhores do que entramos. Trabalhemos pra isso!”, finaliza.

 

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