Estava no banho, quando ouvi minha mãe à porta do banheiro:
– Raquel, a moça da ótica ligou, seus óculos estão prontos.
Eu sempre preciso de um bom banho depois de fazer meus exercícios em casa. Desconheço ser humano que transpire mais que eu. Sempre ouvi dizer que isso é bom, que elimina as toxinas... Só posso crer que sou constituída de muitas toxinas, então.
Saí do banho, e enquanto me trocava, pensava na aventura que seria sair de casa para buscar os óculos, afinal, sair de casa é a última coisa que devíamos fazer neste momento. Mas eu tinha que pegá-los.
Fui. Antes de sair, perguntei se alguém precisava de algo da rua. Nada.
Entrei no carro e fazia o caminho até a ótica no centro da cidade, um tanto surpresa com o movimento que via pela rua.
Quando já estava no Lavapés, o carro da frente diminuiu, o motorista pôs o braço para fora, fazendo sinal para que diminuísse também. E eu pensei comigo, “nem precisa tanto, moço, se tem uma coisa que respeito é faixa de pedestre”. E eu sabia que havia uma ali, então, muito provavelmente havia algum transeunte querendo atravessar.
Sim, havia, eram na verdade três, uma família, que eu só consegui enxergar depois que já estavam na metade da faixa, e portanto, o carro da frente já se deslocara.
Vi-os e imediatamente um arrepio percorreu todo meu corpo. A imagem era significativa e poderosa demais para alguém como eu, que sente demais e todas as coisas.
Vi uma jovem mãe, chorando, com uma criança muito pequena ainda no colo. Vi um jovem pai nitidamente atordoado, com a máscara baixada ao queixo, acompanhando-os. Certamente que a última coisa com a qual ia se importar naquele momento era a máscara.
O choro dela, ainda que assim, de relance, era dolorido demais, como quando não conseguimos evitar, e ele vem à tona, sem nossa prévia autorização, e desce pela face em grossas doses de uma quentura vergonhosa.
E eu e minha mente e meu espírito voltamo-nos àquela família. E eu ainda agora, não sei ao certo o que aconteceu com eles, mas Ele sabe. Ele sempre sabe. Por isso, naquele momento, dentro do carro ainda, meu coração se voltou a Ele. E eu pedi, mesmo sem saber, e talvez esperando pelo pior, que é costume nosso humano, eu pedi que Ele cuidasse daquela família.
Ainda agora quando escrevo essas palavras, sinto meu corpo tomado pelo mesmo arrepio de quando vi aquela cena.
Era Maria, ainda jovem, carregando o menino-Deus. Era José, desnorteado pelo fato de ser pai de seu Pai. Era Deus diminuindo a velocidade dos carros e das pessoas, a fim de lembrar-nos da bênção da paciência.
Era Deus me diminuindo, fazendo-me absolutamente impotente diante da dor do meu próximo. Porque, sim, é necessário que diminuamos, a nós, aos nossos egos quase sempre inflamados demais para toda nossa insignificância.
Não, não era apenas um jovem casal, atravessando numa faixa de pedestres. Eram almas em sofrimento, e queira Deus que a razão desse sofrimento não seja esse maldito vírus que nos assola...
Era Maria, era Jesus, era José. A sagrada família atravessou bem na minha frente, e eu pude sentir a dor daquela mãe bendita, pude me reconhecer no olhar perdido daquele pai, como quem não sabe, realmente não sabe o que fazer. Eu honestamente, também não sei.
Que Ele tenha piedade de nós, é tudo que peço, enquanto me lembro daquela cena.
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