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Crônicas de um Sol Nascente

EMPATIA

Fato: o coronavírus já é uma pandemia oficializada pela Organização Mundial da Saúde. Fato: a próxima vítima pode ser... Qualquer um de nós.

Começo esta crônica parafraseando as falas da atriz Mary Steenburgen no filme “Filadélfia”, de 1993. A película conta a história de um advogado demitido após seus empregadores descobrirem que ele é portador do vírus HIV, que, nas décadas de oitenta e noventa, despertou um pânico similar ao medo coletivo que se vivencia em tempos de coronavírus. Aliás, no referido filme, o papel do advogado demitido rendeu o primeiro Oscar a Tom Hanks. O mesmo Hanks que, ironicamente, voltou a ser notícia, na semana passada, quando revelou, na Austrália, haver sido infectado juntamente com a esposa pelo coronavírus.

Tom Hanks, claro, como qualquer ser humano, célebre ou não, pode ser infectado. O que me chamou atenção, no entanto, foram as brincadeiras que pipocaram na internet a respeito do assunto. Coisas do tipo: “O cara contraiu AIDS e sobreviveu a um naufrágio; se o coronavírus matar esse fdp então...”. Provavelmente, frases que o próprio Hanks levaria no bom humor, mas que, a meu ver, trazem um mal que parece contaminar as pessoas (de modo bem mais grave que um vírus) em tempos de internet: a falta de empatia ¯ refletida em um completo desrespeito pelo sofrimento alheio, que, por sua vez, gera um festival de brincadeiras de mau gosto até mesmo em tempos de crise, como a que vivenciamos agora. O que é uma triste contradição, aliás, visto que os tempos de crise, supostamente, tendem a despertar nas pessoas um maior sentimento da empatia e de altruísmo. Não é, porém, o que testemunhamos na internet, principalmente nas redes sociais, onde o ódio é cuspido para todos os lados por usuários que mais parecem atiradores ensandecidos.

Lembro-me, por exemplo, de que, após o terremoto que destruiu muitas vidas e sonhos no Japão, houve, nas redes, brincadeiras estúpidas como a da imagem divulgada por uma rede de televisão francesa, a qual retratava o goleiro da seleção japonesa, Eiji Kawashima, com vários braços, dizendo que era o “Efeito Fukushima”. E, sem qualquer respeito pela dor do povo japonês, ainda houve quem achasse ¯ pasmem! ¯ que aquilo era “humor inofensivo” ... Um absurdo, enfim!

Na crônica anterior, escrevi que o pânico pode ser mais letal que o vírus. Acrescento hoje, o ódio gratuito e a falta de empatia, ambos de grande periculosidade. Pois, ao ver na internet tanto desprezo pela dor alheia, fico me indagando: “Para onde, realmente, caminha a humanidade? Será que já chegamos a um ponto em que se tornou impossível construir um mundo melhor, e só os tolos sonhadores como eu ainda não haviam percebido isso?”.

E nessas horas, desiludido, aumenta minha empatia pelo vírus.

 

***

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (ASES). Em novembro de 2019, foi o vencedor, na Espanha, do 13º Concurso de Microcontos do Festival de Cine Terror de Molins.

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