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SUB-VERSÃO

Ela

Abri a porta, acendi a luz e fiz meu exercício de olhar todo o entorno antes de entrar no banheiro. Todo, quase todo, porque era atrás da porta, feito a canção de Chico, que ela me esperava.

O corpinho negro, esperto, logo se movimentou ao menor sinal de minha presença. Estávamos dividindo o mesmo espaço, eu e ela, aquela supostamente frágil criatura a quem abomino.

Eu precisava entrar no banheiro, e o fiz de modo a causar menos estardalhaço possível. Mas ela é bicho esperto, e notava, mexendo a cabeça, cada movimento meu.

A verdade é que eu só não deixara o banheiro, às pressas, por causa de seu tamanho. Com isso, eu já consigo lidar um pouco melhor. Filhotes não me paralisam como os pais.

Fui tirando a roupa, devagar e cautelosamente, sem tirar os olhos dela. Precisava me certificar de que não sairia em disparada e, se isso acontecesse, para que direção iria?

Ela respeitava esse momento de intimidade, até então, imóvel, o corpo bem rente ao batente da porta, quase se misturando com ele.

E foi aí que chegou a hora de tirar os óculos... Como vê-la agora, através dessa minha miopia maldita? Tirei, e ela agora não passava de um borrão, cujos movimentos eu insistia em tentar seguir, com meus olhos úmidos e míopes, do chuveiro.

O borrão desapareceu, enquanto eu, num ato de coragem absurda, me entregava ao exercício de lavar os cabelos.

Para onde ela teria ido? De certo se enfiara no vão do batente. Ela ia voltar? E quando eu passasse pela porta pra sair do banheiro, ela estaria me esperando? Ela correria?

Seria ridícula demais a cena de uma mulher enrolada na toalha, paralisada pelo medo.

Coloquei os óculos, ela estava mesmo oculta, mas sei que estava ali. Dividíramos o mesmo teto, compartilháramos da mesma nudez. Já éramos praticamente íntimas, mas nem por isso, nossa relação era amistosa.

E eu me senti feliz e corrompida, por ter estado no mesmo ambiente que ela durante o banho.

Eu me senti exposta ao meu medo e à minha nudez, diante de um ser tão pequeno. Sem ofender a lagartixa, deve ser assim que algumas mulheres se sentem na presença de seus homens medíocres.

 

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