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SUB-VERSÃO

Educação e Sangue

Sou professora. Não podia ficar indiferente ao último acontecimento naquela sala de aula na Vila Sônia. Indiferença não combina com professorado. O professor, nesse nosso país que odeia seus mestres, pode ser tudo, menos indiferente, e é por isso, que o texto da Sub-versão desse sábado, mais uma vez, é dedicado a uma análise, se é que posso chamar assim, das mãos que empunharam aquela faca.

Não se assustem, mas há muito mais gente além daquele garoto com as mãos sujas de sangue. Verdade seja dita, nós professores somos vítimas de violência todos os dias, e sob os seus mais variados tipos. Sofremos com a violência institucional, com uma política que tanto fez, que conseguiu transformar-nos nos vilões da história. Sofremos com a desunião da classe, essa também promovida e incentivada por governos ardilosos. Sofremos com a desvalorização, e quando digo desvalorização não estou me referindo apenas àquela que diz respeito a salários, mas à nossa desvalorização enquanto seres humanos, diante de salas abarrotadas de outros seres humanos.

Atualmente, inclusive, essa “competição” tem sido acirrada pelo fenômeno da internet. Professor virou quase que sinônimo de youtuber, e as atividades postadas na rede, disputam likes.

Vez por outra, como infelizmente aconteceu recentemente, também somos violentados fisicamente. Somos, porque não consigo enxergar de forma individualista, e quando um professor sofre um ataque desses, é como se eu mesma também fosse violentada. Podia ser eu, podia ser você, que assim como a professora Elizabeth também somos professores por vocação, mas não admitimos que ela seja usada como escusa para justificar os maus tratos que a classe sofre diariamente.

Sim, sou professora por vocação e amor à profissão, e por isso mesmo, desejo e sempre lutarei para vê-la valorizada e seus profissionais tratados de forma digna e humana.

Basta de romantizar essa profissão essencial a qualquer sociedade. Professores são seres humanos, em toda sua complexidade e particularidades. O amor com que muitas vezes exercemos nossa profissão não é justificativa para a banalização recorrente de nosso ofício.

Por isso, reafirmo, há muitas mãos sujas de sangue além das daquele garoto. Educação e sangue sempre foram vocábulos quase correlatos no sistema educacional brasileiro. Se outrora, por que esta fora imposta violentamente aos indígenas, hoje, por que tornou-se cenário de um horror sem limites, dadas as condições em que se dá em muitas escolas por esse país continental.

Há muitas mãos sujas do sangue do professor. Muitas!

 

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