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SUB-VERSÃO

DUZINHO

Sempre tão rude com os colegas... É assim que me lembro daquele menino metido a valentão. Áspero, do tipo de criança que está sempre armada, sempre pronta para uma resposta bruta. Do tipo que, muitas vezes por estar tão acostumada a ser tratada assim em casa, apenas repete o comportamento na escola.

Nunca consegui cativá-lo, carrego esse desapontamento até hoje. Mas, afinal, quem conseguiria? Não lhe fora ensinada em casa a mínima noção de respeito para com os professores. Aliás, seu pai nunca comparecera a uma reunião sequer, sempre ocupado demais para perder tempo com professorazinhas feito eu. E por estar sempre tão desinformado acerca dos assuntos relativos à escola e à educação formal de Duzinho, o que fazia com bastante frequência era inventar notícias falsas sobre a escola e difundi-las nas redes sociais.

Esse legado transmitiu ao menino, que estava sempre às voltas com alguma fofoca ou maledicência envolvendo os colegas de turma.

Duzinho, como não gostava de ser chamado, pois preferia Duzão, era apenas tolerado pelos colegas, muitos dos quais viam-se ameaçados pelo constante bullying que o menino fazia.

Duzão de fato nem sabia a diferença entre diminutivo e aumentativo, nem como redigir um texto, ainda que curto, de maneira minimamente satisfatória e utilizando-se de argumentos plausíveis. Via a escola como perda de tempo e defendia a prática de castigos físicos para alunos que não se “enquadrassem”.

Limítrofe, eu nunca gostei dessa palavra e enquanto educadora sempre a considerei um tanto quanto inadequada e punitiva até, mas hoje, diante dos fatos que se apresentam, acho mesmo que era a mais adequada para definir aquele garoto. Não, não estou afirmando que Duzão era incapaz de aprender. Duzão era limitado em tudo quanto se referisse à humanidade, e também nunca foi muito sensível, o que lhe causou sérios prejuízos quando da aquisição de conhecimentos sobre as figuras de linguagem, por exemplo. Não havia o que fizesse o garoto entender uma metáfora, ou melhor, a beleza de uma metáfora.

Lembro-me nitidamente do dia que apresentei à turma a genial canção “Construção”, do mestre Chico Buarque. Eram tantos rostinhos admirados, alguns em puro êxtase, enquanto que o de Duzinho permanecia indiferente, fechado como sempre, sisudo, ao que acrescento ainda um certo ar de “Não estou entendendo nada”.

Duzinho não gostava de poesia, nem de ler, gostava mesmo era das informações prontas que lhe chegavam via Whatsapp e engolia, sem nem ao menos considerar ponderar sobre sua veracidade.

Mas Duzinho agora é figura pública, graças à ignorância de uma parte da população. E numa de suas últimas aparições, como fazia em sala de aula, tratou de presentear-nos com mais um show repulsivo.

De fato, não me surpreende essa sua última deplorável fala acerca de minha classe. Quem está surpreso é o traficante aqui do bairro, que inclusive, já mandou avisar que não admite tal desrespeito para com os professores do filho dele. Mas quem é que disse que Duzinho sabe o que é respeito?

 

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