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Crônicas de um Sol Nascente

Domingo no parque

Era o início dos anos oitentas. Vivíamos, como muitas famílias brasileiras, aqueles tempos difíceis de inflação galopante. Na época, meu pai, tal qual muitos amazonenses, trabalhava numa fábrica do distrito industrial. Nessas fábricas, o salário era pouco – o que levava, naturalmente, minha mãe a fazer verdadeiros milagres administrando os suados e pequenos ganhos da família.

Sim, o nosso cotidiano era então o mesmo de muitos lares brasileiros. Um tempo cheio de medo – ainda havia um resto de ditadura ao redor – e de muitas incertezas. Ou quase. Porque, mesmo com todas as dificuldades vividas, havia, pelo menos, a certeza de uma alegria para o sofrido povo brasileiro: a de que, no domingo, Silvio Santos nos faria sorrir.

Eu, nos meus seis, sete anos de idade, era o primeiro a sentar-me defronte à tevê, já pela manhã, para acompanhar o “Domingo no Parque”. E, quando era a “Brincadeira do Foguete” – em que uma criança ficava dentro de uma cabine respondendo “sim” ou “não” para os brindes oferecidos –, ah, como eu sonhava em estar no lugar daquela criança para ganhar um daqueles brinquedos. Divertia-me, vibrava, sonhava... Como, tenho certeza, fazia a maioria das crianças de nosso imenso Brasil.

À tarde, era a hora da família reunir-se para assistir ao “Qual é a Música?”. Recordo que eu tinha o maior medo do maquiado e misterioso “Pablo”, que dublava as canções na hora de revelar as respostas. E assim passávamos juntos – meus pais, meu irmão, eu (e mais uma tia que morava conosco) – divertindo-nos, esquecendo os problemas: ao menos por um domingo.

Anos mais tarde, já um adolescente, eu costumava passar os domingos na casa de meus avós maternos, que também eram fãs de Silvio. E, daquela época, que era então o final dos anos oitentas, lembro-me principalmente do quadro “Cidade conta cidade”, e das perguntas de conhecimentos gerais. Em casa, com os meus avós, fazíamos até uma pequena “competição familiar” para ver quem acertava mais. E, assim, íamos aprendendo e nos divertindo juntos.

E mesmo agora, já na fase adulta, Silvio Santos também estaria presente em meus domingos, alegrando não só a mim, mas também a minha esposa durante sua passagem pelo Brasil. Era o ano de 2010 e havíamos decidido passar um ano no Brasil. Foram tempos difíceis para este casal, confesso, com mais portas fechadas do que abertas em minha tentativa de repatriamento. Mas, mesmo com todas as barreiras enfrentadas, as noites dos domingos eram momentos de alegria para minha esposa e eu: pois ele de novo, Silvio, chegava para dar um colorido aos nossos olhos saudosos do Japão...

De modo que foi assim que Silvio Santos esteve presente em minha vida: reunindo minha família nos domingos. Por isso, quando ele partiu há duas semanas, meu coração, mesmo do outro lado do mundo, verdadeiramente se entristeceu.

Ainda que, tenho certeza, Silvio Santos não gostaria de ver-me (nem a mim nem a ninguém) entristecido. Porque ele era e sempre será alegria.

Uma alegria que, agora, ele deve estar distribuindo entre os anjos enquanto sorri e pergunta: “Mááá oêêê! Quem quer uma auréola?”.

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quinhentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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