Ainda me lembro com saudosismo a reação de meu sobrinho, quando ainda nenê, toda vez que ouvia ao longe o caminhão da coleta de lixo se aproximando. “Ti- ti! Ti-ti!”, assim ele reverenciava os amados “titios” da coleta de lixo. E ai de nós se imediatamente não o carregássemos até a rua para que pudesse ver seus amigos, era uma choradeira só.
Morreu por “atrapalhar” o tráfego. Antes fosse apenas um verso estilizado retirado da célebre canção de Chico Buarque, mas não, esse fato narrado em uma oração simples foi retirado de nossa realidade cotidiana.
O gari Laudemir de Souza Fernandes foi friamente assassinado pelo empresário René da Silva Nogueira Júnior, em Belo Horizonte, pelo simples motivo de o caminhão de coleta em que trabalhava estar obstruindo sua passagem no trânsito.
O empresário, ao que parece, tinha pressa, estava a caminho da academia onde mais tarde, após um cerco da polícia foi encontrado e preso. Ao que parece, também seus músculos importam mais que a vida de um trabalhador.
Ainda segundo relato da condutora do caminhão, havia espaço suficiente para o empresário passar com seu carro. Havia espaço! Ainda sim, o empresário ameaçou os trabalhadores e, ao final da discussão, cumpriu a ameaça, atirando contra Laudemir.
E eu me pergunto: de onde essas pessoas tiraram autoridade para sair por aí, feito uns trogloditas acéfalos, desprovidos de qualquer humanidade, ameaçando trabalhadores com suas armas? Aliás, o valentão usava a arma da namorada, delegada.
Que fúria assassina é essa que outorga a um ser humano o direito de interromper a existência de outro em função de um desentendimento no trânsito?
Adepta da musculação, reconheço sua importância para toda e qualquer pessoa; adepta de alguma humanidade, reconheço a absoluta prevalência de uma vida humana sobre qualquer situação ou possível desagrado. Há urgência em viver, e esta deveria prevalecer sobre a pressa, sobre o egoísmo de se sentir mais importante que outro ser humano, no desempenho de suas funções. Chegar à academia é um motivo absolutamente fútil e inconcebível para justificar um assassinato.
Laudemir não era apenas um gari, afinal, uma pessoa não pode ser reduzida à função que exerce. Laudemir não era só mais um número nas estatísticas policiais. Laudemir tinha família, pessoas que o amavam e que o esperavam em casa, depois do exaustivo trabalho. Portanto, sua morte não pode ser esquecida, nem invalidada pela impunidade. Toda uma existência não pode simplesmente ser extinta da face da Terra pela violência ignóbil de alguém que se sente superior ao seu semelhante.
Banalizamos a vida, escancarando assim, o lixo de que somos feitos.
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