Os domingos em casa nunca mais seriam os mesmos.
Fora um domingo fatídico aquele, em que mais uma vez, como fazíamos todo domingo, nos sentamos em frente à TV para assistir às corridas de Fórmula 1.
Domingo em casa sempre foi regado a macarronada, frango assado e Fórmula 1. A macarronada e o frango ainda resistem até hoje e talvez seja por conta de minha ascendência italiana, mas a Fórmula 1... Ah, essa deixou de ter graça no dia 1 de maio de 1994.
Eu era ainda uma menina, quando me defrontei com a morte.
A morte, essa curva traiçoeira da estrada, que um dia, nos levará a todos à reta final, naquele dia levou embora meu ídolo de infância. E mais tarde, levaria também minha companheira dos domingos, com quem assistia, concentrada e maravilhada, às corridas de Fórmula 1 na TV.
Tia Nenê, como todos a chamavam, era tia de minha mãe e uma mulher incrível!
Tanto que a consigo ver agora, nitidamente, vestida com sua camisa estampada, em cujo bolso guardava o maço de cigarros, (companheiro que mais tarde abandonaria, resoluta que era, após décadas de convívio), saia, sapatos, os cabelos curtinhos, que confesso, sempre achei lindos. Dona de uma personalidade forte, minha memória está repleta de momentos vividos ao seu lado, e muitos deles me remetem aos domingos em que ela almoçava conosco, e nos quais Ayrton Sena da Silva nos enchia de orgulho e alegria!
Os domingos em casa não são mais os mesmos, a morte os modificara para sempre.
Trinta anos se passaram desde que aquela curva de Ímmola o levou de nós, trinta anos! E às vezes ainda me pego imaginando como seriam meus domingos e o mundo se ele ainda estivesse aqui, se aquela maldita curva não o tivesse roubado de nós.
Aliás, o tempo e a História têm nos roubado tantas coisas... A bandeira, as cores de nosso país... Que saudade de ouvir Galvão Bueno, sim Galvão Bueno gritando a plenos pulmões Ayrton Senna do Brasil! Do Brasil! Que orgulho imenso ouvir essa frase, quando ainda uma menina... porque o Brasil era para mim, e ainda é motivo de orgulho, apesar dos pesares.
Roubaram-nos tanto, que é preciso e urgente que resgatemos através memória e da vigilância constante aquilo que de mais bonito ainda nos resta. É preciso esperançar um Brasil bonito, íntegro, justo e feliz como eram os domingos em frente à TV, assistindo o espetáculo oferecido por Ayrton Senna do Brasil.
Precisamos seguir lutando para que haja macarrão nas mesas de todos os brasileiros aos domingos, e alimentação digna nos demais dias da semana.
E apesar da morte, esse algoz que nos assombra a todo, ouso dizer que Ayrton e Tia Nenê permanecem vivos em minhas lembranças e em meu coração. E juntos onde estão, no pódio final, devem estar orgulhosos daquilo que foram, daquilo que ainda são no coração daqueles que os amaram.
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