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Crônicas de um Sol Nascente

Diversidade

O japonês é, sobretudo, um conservador. E isso é cultural. Por isso, qualquer desvio do padrão é visto com um certo desconforto na Terra do Sol Nascente. De modo que temas como “LGBT”, “igualdade entre homens e mulheres”, “direitos trabalhistas” – clássicas bandeiras do avanço social –, embora protegidos pela lei, são silenciados na prática, fazendo assim com que qualquer mudança, quando ocorra, seja extremamente lenta – ou, como em Manaus costumamos dizer, “quase parando”.

Por tudo isso, foi com uma grande surpresa que, há alguns dias, ao assistir com o meu filho a um programa infantil na NHK (a principal rede de tevê japonesa e, portanto, conservadora até a raiz), vi que a apresentadora ensinava à garotada sobre o significado da sigla “LGBTQ” – sim, também foi incluído, como não deveria deixar de ser, o “q” dos que se questionam –; explicando-lhes que também há meninos que gostam de meninos, meninas que gostam de meninas... enfim, aquilo tudo que existe e que sempre existiu a respeito de sexualidade, mas que muitos ainda se recusam a aceitar.

De minha parte, achei a iniciativa da emissora japonesa muito bacana. Tanto que, no mesmo dia, minha esposa e eu compramos para o nosso filho um livro infantil sobre o tema da diversidade. O título da obra em questão: “Os vários tipos de famílias existentes”. Ou seja: crianças que têm dois pais ou duas mães; outras que são filhos e filhas de pais e mães solteiras... Há no livro, ainda, a respeito de casamentos internacionais; crianças adotadas... Enfim, o livro tenta ensinar a seus pequenos leitores que não há uma família padrão, e que todo lar que dá amor e carinho às crianças deve ser respeitado.

Aliás, quem me conhece sabe que tento sempre abordar com respeito a questão das diferenças. Afinal, o mundo é grande o suficiente para que todos tenham o seu “lugar ao sol”. O que não gosto é de radicalismos, independentemente da causa e da ideologia. Essa mania que temos de querer excluir (e, se possível, eliminar da face da Terra) todos aqueles que não sejam o nosso reflexo no espelho. 

Por conseguinte, também fico extremamente chateado quando, para defenderem um ponto de vista, as pessoas apelam para o absurdo, perdendo a noção do que é certo ou errado. Por exemplo, jamais vou defender a violência contra um grupo somente porque este pensa diferente de mim.

Como também, por outro lado, acho asquerosas e desnecessárias cenas como aquela de um homem nu sendo tocado por crianças, ocorrida há alguns anos em um museu de São Paulo – aquilo para mim não é arte: é crime, nada mais. Acho, sim, a educação sexual válida; mas tudo tem um limite. Uma criança JAMAIS (e coloco isso assim mesmo, em letras maiúsculas) deve ser forçada a situações escabrosas como a do referido museu. Guiar os pequenos, sim: expô-los, NUNCA! O resto são palavras vomitadas por um bando de irresponsáveis!

No mais, o mundo tem de aprender, sim, a conviver com a diversidade. Mas, volto a frisar meu ponto de vista, sem radicalismos desnecessários, que, no final das contas, só nos conduzem à barbárie.

O mundo é grande, como eu disse, mas nele não cabem nem a intolerância nem o desrespeito.

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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