“Apesar de você, amanhã há de ser novo dia... Hoje você é quem manda; falou, tá falado; não tem discussão, não; a minha gente hoje anda; falando de lado; e olhando pro chão, viu...” diz a canção dos anos de 1970, na época censurada, do cantor e compositor Chico Buarque, momento em que o país atravessava os temerosos anos de chumbo.
Hoje, seis décadas depois, rememoramos esse que foi um dos episódios mais tristes, trágicos e criminosos da nossa história recente: a Ditadura Civil Militar.
Protagonizado por parte dos militares, com o apoio de parcelas de vários outros setores da sociedade – como imprensa, igrejas, empresas, classe política e a própria sociedade civil – o Golpe Civil Militar contra o Estado em 1964 – compreendido como uma intervenção momentânea – se estendeu por longínquos vinte e um anos!
Relembrar o que foi aquele período não é só necessário, no sentido de denunciar os horrores ocorridos e o esforço necessário para punir seus algozes – haja vista que nunca passamos essa história, de fato, a limpo; como também fazer coro para que nunca mais se repita, como ficou registrado na frase que, talvez, melhor repudie aquele Estado de exceção: “Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”. Ditadura nunca mais!
E para que não aconteça novamente, é preciso lembrar, por mais doloroso que seja. Lembrar daqueles anos de repressão, violência, tortura e mortes; lembrar das pessoas desaparecidas, crimes não solucionados até hoje, o que não permitiu sequer que seus entes queridos pudessem viver o luto e velar seus restos mortais; lembrar das horripilantes cenas de tortura, que testavam as pessoas em seus limites humanos, o que só poderíamos imaginar em filmes de terror...
Lembrar da censura, da ausência de liberdade, do medo velado, da intimidação, da vigilância e controle de ideias e de pessoas; da repressão e perseguição, que faziam parte do cotidiano, em especial de quem ousasse tecer qualquer crítica ou afronta ao regime vigente...
Lembrar para que as cenas que têm sido recorrentes nas manifestações lideradas pelo ex-presidente e seus apoiadores, nas quais se vê atos de adoração e apologia explícita ao Regime Militar, não aconteçam. Aliás, a dedicatória do então deputado federal, Jair Bolsonaro – que nunca escondeu seu fascínio pela Ditadura Militar –, em seu voto favorável ao impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff a um dos maiores torturadores daquele período – Carlos Alberto Brilhante Ulstra – só reforça o quão precisamos rememorar essa história e reforçar narrativas de repulsa àquele período, que tão mal fez às pessoas e a democracia.
Democracia – ainda que tenha inúmeros desafios – é o símbolo do respeito, da pluralidade, do debate e confronto de ideias; permite o contraditório; onde a voz e o desejo da maioria prevalecem e os direitos minoritários são respeitados; onde se assegura participação social e representatividade política; e se reconhece um Estado de direitos, igualdade e liberdades fundamentais.
Democracia que segue sendo subjugada, atacada, achincalhada, como a invasão em 08 de janeiro de 2023, quando uma horda invadiu Brasília e depredou as sedes dos Três Poderes, pedindo intervenção militar e menosprezando o resultado das eleições daquele ano; antes disso, o Golpe de 2016, que retirou do poder uma presidenta legitimamente eleita – Dilma Rousseff – o que de fato se deu – longe da narrativa distorcida das pedaladas fiscais –, entre outros, em razão da própria Comissão da Verdade por ela instalada, na qual os horrores do período ditatorial ganharam visibilidade, gerando a ira de muitos envolvidos e simpatizantes!
Por tudo isso, precisamos lembrar, lembrar sempre...
Lembrar dos golpes atrás de golpes vividos por nossa frágil democracia, o que reitera a importância de sua defesa e fortalecimento; lembrar, porque “amanhã há de ser novo dia” e não deixaremos ninguém nunca mais andar com medo e de cabeça baixa!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo
***
Siga o JORNAL EM DIA BRAGANÇA no Instagram: https://instagram.com/jornalemdia_braganca e no facebook: Jornal Em Dia
0 Comentários