Permitam-me, inicialmente, esta breve apresentação: meu nome é Edweine Loureiro e sou um brasileiro residindo no Japão há mais de dezoito anos. E é como imigrante na Terra do Sol Nascente que venho hoje fazer-vos um convite: uma viagem quinzenal pelo país que me acolheu. Um Japão ainda apegado às tradições, naturalmente, mas que também dialoga com o multifacetado século XXI.
E já que citei o verbo dialogar, nada mais apropriado que a primeira crônica que vos trago tenha como tema a comunicação. Esta uma verdadeira corda bamba para o estrangeiro no Japão (em virtude, sobretudo, do complexo idioma), mas que, quando percorrida, tem até mesmo um poder transformador. Como aconteceu comigo.
Explico: latinamente, cresci com o hábito de falar mais do que escutar. O que se agravou na época da faculdade de Direito: um lugar em que, não raras vezes, tenta-se impor a própria razão não dando espaço à voz do oponente.
Pois bem: já exercendo a advocacia, recebi, aos vinte e cinco anos de idade, uma bolsa de estudos para cursar o mestrado no Japão. E, mesmo não dominando o idioma, aceitei o desafio de assistir às aulas na Universidade de Osaka, entre os anos de 2001 e 2005; período este em que tomei, à base de muito sofrimento, consciência de que minha verborragia jurídica não encontraria lugar em uma universidade japonesa. Ao contrário, meus argumentos apaixonados até prejudicavam minha interação com os demais, passando a imagem de “um estrangeiro descontrolado”. E já o meu mestrado caminhava para um final nada feliz, quando recebi, certo dia, de meu tutor, o Sr. Terada, uma das lições mais valiosas de minha vida: o “ba wo yomu”.
A expressão é oriunda de uma combinação das palavras bashou (lugar) e yomu (ler). Ou seja: ler o lugar. O que significa que, antes de manifestarmo-nos a respeito de um assunto, é necessário escutar e refletir (o que corresponderia à “leitura do ambiente”) - para só então opinar. Um ato tão simples e eficaz - a própria essência do diálogo, vale frisar -, mas que acabamos ignorando na “pressa de vencer um debate”.
Mais tarde, já formado e dando aulas em escolas japonesas, vi que tal comportamento é ensinado desde muito cedo às crianças, a fim de manter a harmonia durante a discussão de um tema. Um comportamento que, quando compreendi e adotei, também tornou mais fácil minha adaptação à sociedade japonesa. Dificuldades de comunicação ainda existem, claro, mas, pelo menos, hoje tento ouvir com maior frequência que falar: o que, certamente, tem enriquecido minhas experiências no país.
Experiências estas que continuarei a trazer-vos, caros leitores, na próxima edição: num harmonioso diálogo (aberto a sugestões e críticas)... bem ao gosto do Japão.
EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
Sugestões e críticas podem ser enviadas para: edweine.loureiro@gmail.com.
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