Diz o jargão popular que “educação vem de berço”. A escola vai – e deve – aprimorá-la, introduzindo a base técnica-científica, numa perspectiva crítica, reflexiva e transformadora, com vistas a uma sociedade melhor; melhor em todos os aspectos...
Nada mais necessitado de educação do que o trânsito em nosso país!
Local onde vivemos uma verdadeira guerra silenciosa, que ceifa a vida de milhares de pessoas por ano e deixa tantas outras sequeladas. Uma espécie de epidemia no trânsito, em que imperam o egoísmo, a pressa, o desrespeito, desatenção, estupidez e a má-educação.
Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), no mundo, uma pessoa morre no trânsito a cada vinte quatro segundos; mais de um milhão, trezentos e cinquenta mil morreram em acidentes só no ano de 2021; e no Brasil, em 2022, foram 32.197 vítimas fatais em acidentes de trânsito – sendo este um dos países onde mais se mata e mais se morre no trânsito, o que custa expressivas cifras financeiras ao Sistema Único de Saúde (SUS), da ordem de bilhões de reais em duas décadas, no atendimento às vítimas ou tratamento aos sequelados.
Realidade que é fruto de vias esburacadas, sem manutenção ou em péssimas condições, sem sinalização, semáforos discrincronizados, falhos ou inoperantes; mas também conta com pessoas que simplesmente não respeitam as leis de trânsito, são más educadas mesmo – por vezes, incapazes de se colocar no lugar do outro ao dar uma simples seta que manifeste seu movimento em trânsito; indivíduos que fazem das vias públicas uma verdadeira pista de corrida, excedendo o limite de velocidade, manuseando ainda, em alguns casos, veículos em péssimas condições de uso, que atentam contra a vida de si mesmo, de pessoas ao entorno e do meio ambiente...
Nesse caso, é necessário colocar em prática algo cantado por Roberto Carlos, “Mandei meu Cadillac pro mecânico outro dia, pois há muito tempo um conserto ele pedia...”. Sim, o possante precisa de manutenção e seu condutor requer limites!
O mês de maio – também renomeado de mês amarelo – busca alertar toda a sociedade para a gravidade deste problema. Problema que requer – necessariamente – ser enfrentado pelo poder público, no campo de uma política pública, que invista na manutenção e conversação de vias públicas; monitoramento e fluidez no trânsito – por meio, entre outros, do investimento em transporte público; implementação de vias complementares, como ciclofaixas e ciclovias, em especial no fomento de ações sustentáveis; campanhas de “trânsito seguro”, que fomente desde a infância uma cultura de respeito à vida. Ações que precisam ser concretas, não apenas promessas ou discursos políticos de costas a esta realidade.
Respeito à vida que passa, sobretudo, por punições mais duras àqueles que atentam contra vida no trânsito. Como é possível uma pessoa passar o sinal vermelho, eventualmente matar alguém e dizer que não houve intenção de matar?
Ainda temos penas muito brandas quando se atenta contra à vida em nosso país, em especial no trânsito, cuja punição também depende muito de quem se trata. Reiteradamente vemos criminosos – a de se referenciar o ato como de fato são – respondendo em liberdade após o pagamento de fianças face a ocorrência de um acidente, que por vezes incorre em vítimas – graves ou fatais.
De fato, bebida e volante não combinam, como inúmeras campanhas sempre reforçam. Mas o problema não é só esse e não deve ser centralizado “apenas” no uso de álcool. Talvez tão grave quanto é o uso de celular ao volante, passar no sinal vermelho, exceder o limite de velocidade, não respeitar faixas de pedestre e os demais sujeitos das vias públicas, em especial pedestres e ciclistas, os sujeitos mais frágeis nessa guerra silenciosa.
Desfilar com o calhambeque por aí requer responsabilidade, respeito, atenção; e pode ser muito melhor com uma dose de educação: que dê a vez ao outro, espere uma pessoa atravessar a faixa de pedestre, dê seta nas manobras feitas – é necessário usar a seta sim, ela não é um enfeite – e conte com as ações por parte do poder público, afinal – parafraseando o poeta Carlos Drumond de Andrade: “pois de amor, andamos todos precisados” – no trânsito, de educação estamos precisados!
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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