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Crônicas de um Sol Nascente

Curtindo a vida adoidado

Dia desses, li na internet que um japonês pagou uma pequena fortuna para fantasiar-se de cachorro. Não é uma fantasia qualquer, vale frisar, mas uma com características bem “realistas”. Com pelos, patas, rabo, focinho, tudo de uma fidelidade tão impressionante – não sei se as pulgas também vêm nesse pacote – que podemos ver ali um cão verdade: que rola, dá a patinha... enfim, que faz todas as “cachorrices” permitidas à espécie. O homem em questão, que se identifica apenas como “Toco”, disse (e não latiu) aos repórteres que resolveu optar por esse estilo de vida porque “sempre quis ser um animal”: de modo que, no final das contas, escolheu tornar-se um collie.

Bom, não vou querer aqui bancar, como é costume na internet, o juiz do mundo rotulando o seu “Toco” de “louco”. Seria injusto e, além do mais, quem sou eu para chamar alguém de maluco? Logo eu que fico secretamente feliz por ter mais de 3.500 amigos no Facebook! (pode haver loucura maior do que ter afeição por avatares?!). Não, senhor. Mesmo porque os piores loucos, como sugeriu Machado de Assis em seu maravilhoso “O Alienista”, são os que fazem as coisas ditas normais. Ou seja, praticamente o mundo inteiro. De modo que, em vez de criticarmos a escolha do seu Toco, deveríamos era seguir o seu exemplo, transformando-nos, quem sabe, em um animal qualquer (eu, por exemplo, há tempos tenho uma dieta calculada com o plano de tornar-me um elefante!).

Mas, questões existencialistas à parte, alguns japoneses, como é o caso do seu Toco, são mesmo um show no quesito “excentricidade”. Certa vez, conversando com um colega, ele nos falou a respeito de um homem em Ueno (famoso bairro de Tóquio) que, já desprovido de cabelos, pintava pelos negros na cabeça usando um pincel atômico e assim saía à rua. Ideia batuta, não é mesmo? Acho que vou começar a pôr em prática também. E ainda há a vantagem, diga-se de passagem, de economizarmos com perucas e tônicos capilares.

Também há um outro tipo – esse aqui perto de casa – que passa todo dia em sua bicicleta gritando “watashi wa okashikunai” (traduzindo: “Eu não sou maluco”); tal qual aquele personagem de “A Praça é Nossa”, programa de muito sucesso na tevê brasileira. Se ele tem um fone de ouvido e está falando com alguém? Pode até ser. Mas, se for esse o caso, fica a impressão de que ele está tentando convencer todo dia a mesma pessoa, por esta duvidar de sua sanidade mental. Persistente o nosso personagem, não concordam?

Eu, de minha parte, acredito no homem da bicicleta. Louco ele? De forma alguma! Louco mesmo é quem passa doze horas do dia trancafiado em uma empresa para ganhar um salário achando que isso é uma realização. Louco é quem acredita em políticos e líderes religiosos, e ainda compra briga para defendê-los. Loucos somos todos nós, enfim, que passamos o dia achando que o mundo é uma tela de celular. É, meus caros, loucura mesmo é tudo isso...

E é tanta loucura disfarçada de normalidade que dá até vontade de se fantasiar de cachorro! Ou de elefante.

***

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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