Vidro ao chão, vidro dividido em milimétricos pedacinhos. Lucas, pega uma vassoura e uma pazinha pra tia, por favor!
Ele tenta em vão abrir a porta da cozinha que dá acesso aos materiais de limpeza. Está emperrada. Eu vou por fora, tia. Um minuto e está de volta, vassoura e pá nas mãozinhas. Peço que se afaste, não quero que corra o risco de se cortar, varro, junto, varro de novo. Tia, olha um vidro ali! Seus olhinhos ágeis veem o que os meus cansados deixam passar. Vidro amarronzado, piso marrom. Olho de novo, mais uma conferida. Pano com álcool para limpar, mais uma olhada.
Ah, vou tirar a etiqueta para saber como comprar outro para repor pra sua mãe. Ai, cortei o dedo! Cortinho de nada, ardido.
Toma, tia. Ele já vinha com um curativo na mão. Não precisa, meu amor, foi só um cortinho de nada. É melhor você pôr álcool pra desinfetar, tia... Num misto de preocupação, inteligência e vontade de borrifar o álcool. É mesmo, concordo. Álcool na mão, no chão, pronto, a vontade fora saciada.
Vamos, Lucas, se não você vai se atrasar. Daqui a pouco sua mãe chega. Vamos.
Ele toma banho, eu de olho, conferindo a fim de que não se esqueça de nenhuma parte fundamental. Roupa trocada, cabelo penteado. É como se alguns anos tivessem se passado. É agora um mocinho sentado na cama, celular na mão, sonolento como ficamos todos nós depois de muito brincar e de um banho gostoso.
Lucas, será que eu já ligo na farmácia pra pedir o remédio? Não, espera minha mãe chegar. Tá bom.
Mais um tempo, e eu já sonolenta... Brinquei muito, mas ainda nem tomei banho, confesso. Campainha. É a mãe dele.
Mãe, deixa eu te falar, minha tia quebrou o vidro do meu remédio pro ouvido. Mas fui eu que falei pra ela trazer, então a culpa é de nós dois.
Heloísa, eu peguei a etiqueta, já vou mandar preparar outro.
Não precisa, esse já tava velho e com certeza o médico vai receitar outro hoje.
“A culpa é de nós dois”, disse um menino de sete anos de idade, numa atitude absolutamente justa, sensata, responsável e até mesmo desnecessária, afinal, a adulta ali era eu. Essa frase, dita assim tão espontânea e bondosamente, me fez sentir o que sempre pensei a nosso respeito, que somos, mais do que tia e sobrinho, cúmplices.
Pensei também em que trabalho maravilhoso minha irmã vem fazendo com relação à sua educação, mas sobretudo, senti-me grata pelo privilégio de conviver com esse menininho esperto, inteligente e bagunceiro, que um dia certamente se tornará um homem íntegro e honrado.
Talvez eu nem esteja mais aqui para vê-lo assim. Deus permita que sim, e aí vou fazer questão de lembrá-lo das loucuras com a tia doida e do quanto nos divertíamos quando ele era criança.
Sabem, o amor entre tia e sobrinho é algo tão inexplicavelmente sublime, que se hoje sou um ser humano melhor, a culpa... É toda dele!
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