A arte que enxerga a criança como alguém com identidade e não como um indivíduo que “virá a ser”
Graças à Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, o país vive uma época de efervescência cultural. Muitos projetos estão acontecendo, mesmo que na nova realidade do on-line. Diversos desses projetos são voltados para o público infantil e serão apresentados neste final de semana (veja a programação completa aqui). O Jornal Em Dia conversou com agentes culturais que têm o trabalho desenvolvido a partir do olhar de quem vê a criança como indivíduo pensante e não como alguém que virá a ser um adulto um dia. Essa preocupação de ver a criança como público consumidor e crítico, respeitando o tempo da infância, é o que move os trabalhos de Fabiana Vasconcelos Barbosa e Fábio Retti, do Pequeno Teatro do Mundo, da contadora de histórias Juliana Bueno e da educadora Jussara Reis.

“A criança provoca para que o trabalho esteja sempre melhorando. É um público muito espontâneo, muito exigente, e muito apaixonante. Isso traz um valor para o trabalho, porque quando ele acontece, você se sente bem por esse encontro, em estar ali com esse público”, fala Fabiana. Ela se aproximou mais ainda do universo infantil ao se tornar mãe, o que a fez querer estudar sobre a infância. “Aí eu descobri que uma das coisas que mais me fascinavam no teatro era o ato criativo, a ação de criar. E a criança está o tempo inteiro criando”, diz.
“A exigência, a qualidade e o cuidado do trabalho para crianças são muito maiores, porque você está lidando não com pessoas menos capacitadas, mas sim, com sensibilidade muito maior e que demandam esse cuidado porque, justamente, estão em desenvolvimento e estão criando essa nova humanidade. E isso é muito profundo”, analisa.
“O ser humano, conforme ele vai crescendo e evoluindo, vai desaprendendo o lúdico. O espetáculo de marionetes, que é o que fazemos, não acontece ali, ele ganha vida dentro da cabeça do espectador. E a criança está completamente aberta a isso. O mundo acontece dentro da cabeça dela. Esse tipo de trabalho é também um resgate do lúdico do adulto. A criança não é produtora e não gera renda. Então, muito do que é pensado para ela, enquanto política pública mesmo, é assistencialista. Existem muitas iniciativas voltadas para a criança como indivíduo, o que falta é visibilidade”, diz Fábio.
“Quando você tem a possibilidade de permitir uma experiência que seja de valorização dessa fase da vida, é muito potente”, observa Fabiana.
O Pequeno Teatro do Mundo apresenta o espetáculo “Onheama”, dentro da programação do Festival “Se esta Rua fosse Sua”, neste sábado, às 17h, pelo YouTube da Casa Lebre no link: youtube.com/casalebre.

Juliana Bueno é contadora de histórias e faz parte do coletivo “Aqui que a gente brinca”, projeto que olha para a infância como produtor de cultura, não apenas a quem a cultura se dirige. “O brincar é de fato a linguagem da infância e é brincando que a criança tanto interioriza o mundo quanto se exterioriza e vai em direção a ele. É brincando que ela ganha intimidade com a vida. A criança merece arte da melhor qualidade, não o entretenimento puro e simples. É desenvolver, através das linguagens artísticas, a sensibilidade desde sempre. A criança não é um ‘vir a ser’, ela já é. Ela não é um futuro adulto, é um indivíduo. Se a gente tiver a coragem de dar voz e de realmente ouvir e de realmente mudar a rota a partir do que as crianças propuserem, a gente vira, de fato, inclusivo”, reflete.
“A linguagem da criança é a fantasia. A brincadeira não ensaia a vida. A criança quando brinca está entregue, no momento presente, não é ensaio. A criança é espontânea”, diz.
Juliana faz contação de histórias neste sábado, 24, às 11h, dentro da programação do Festival “Se esta Rua fosse Sua”, que será exibida pelo YouTube da Casa Lebre no link: youtube.com/casalebre.

Jussara Reis é educadora e brincante e tem como interesse pessoal a produção cultural para a criança. “Quando eu comecei a dar aulas para crianças, eu comecei a me alimentar mais desse universo infantil. E desse encontro, veio o encantamento pelo modo de produção cultural que a criança tem, de se expressar, no desenho, na oralidade. Se costuma olhar para a criança como alguém que virá a ser, que está sendo moldada para se tornar algo, sendo que na verdade ela já é. A infância é real, é presente, é concreta”.
Jussara é idealizadora do Histórias para Navegar (Marear) e a inspiração para o primeiro livro do projeto “A Menina, o céu e o mar”, veio de um encontro que ela e alguns amigos tiveram com uma garota em uma viagem à praia. Ela nunca mais encontrou aquela criança, mas os ensinamentos que ela deixou permanecem com a educadora. “Foi de uma sabedoria, uma visão de mundo que nos mostrou a possibilidade de sonhar”, lembra.
Quando a história ficou pronta, ela apresentou primeiro aos seus alunos, para saber se eles aprovariam. E não imaginou o quão enriquecedor seria para o processo de aprendizado deles. “Quando eles souberam que a história era minha, trouxe uma proximidade e a referência de que é possível. Então começaram a criar e a contar as próprias histórias”, conta.
Jussara lança a história que terá a versão em livro impresso e digital e em áudio narrado, com ambientação musical, neste sábado, às 16h, pelo Instagram do projeto, no link: https://www.instagram.com/historiasparanavegar_marear/.
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