Amanheceu decidida a não se esquecer de tomar o complexo vitamínico prescrito pelo médico. As instruções eram bem claras: tomar em jejum.
Médico das antigas, o agora senhor de cabelos e barba brancos mantinha o mesmo espírito encantador de antes, quando ela era apenas uma menininha gordinha e curiosa, que ousava rodopiar na cadeira giratória de seu consultório sob o olhar de reprovação da mãe. Claro, só podia ser ele, o bom dia cantado, típico de suas origens mineiras e aquele ânimo todo ao cumprimentar os pacientes, era ele. A memória não pôde trai-la, apesar dos muitos anos que separaram a menina travessa da agora mulher com a garganta inflamada.
Sábio como só ele, logo viu que a irritação e a coriza não passavam de uma reação alérgica causada pela mudança de estação.
A chegada do outono trouxera consigo bruscas quedas nas temperaturas, manhãs e noites mais geladas e calor insuportável mediando o dia.
Não era caso de se envenenar com Azitromicina, nem com anti-inflamatórios.
“Pare já com esses remédios, menina!”, disse o doutor da minha infância, em tom sério, ao qual se seguiu uma gargalhada genuína, acrescentada de um último imperativo, “Eu tô mandando!”, quando o alarme do meu celular me lembrava do horário do veneno. Não tomei, é claro. Sempre fui uma menina rebelde, mas nada boba.
Antialérgico, complexo de vitaminas e um spray bucal, daqueles bem naturais, à base de própolis. Um abraço para a mamãe e pronto, a menina estava liberada e um tanto aliviada. Nunca gostei de remédios.
Vitaminas A, D e E. “Fazem bem para a pele e cabelos”, disse ele, como que numa tentativa de me persuadir acerca da utilidade das milagrosas ampolinhas. Três, a serem tomadas em jejum, com intervalo de quinze dias entre cada uma.
Ampolas de vidro, como há tempos não via mais.
Ampolas doídas, como a vida costuma ser às vezes. Seu conteúdo, um óleo viscoso, quase que misturou-se ao sangue denso que escorria sem parar do meu dedo indicador. Corte feio, ardido, sabe? Ainda está aqui, posso vê-lo e senti-lo, mesmo quando coberto pelo curativo.
Fosse eu a menininha de antes, choraria horrores com meus olhões verdes arregalados. Sendo eu a mulher que sou hoje, engoli o choro, fui ao banheiro tratar de limpar o corte e estancar o sangue com um “band-aid”. Voltei para a cozinha e, depois de muito esforço coletivo, consegui extrair o precioso óleo e sorvê-lo.
Fiz o que precisava ser feito, mas confesso que, por um momento, desejei ser a menininha de três anos, cuja garganta vez por outra inflamava, o que a levava ao consultório do doutor Maurício.
Senti saudades de ser a menininha que rodava na cadeira. Desejei conseguir lembrar o que aquela menina sentia e imaginava, enquanto girava seu giro infantil. Senti vontade de não engolir o choro. Lembrei-me de que a vida tem suas fases dolorosas, cortantes, mas que delas vem cura e mais vida. Feito o conteúdo da ampola, feito o sangue que é, por si só, vida.
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