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Crônicas de um Sol Nascente

Corra que a polícia do Gosho vem aí!

Passei o réveillon em Quioto! Sei que quando se menciona o nome da cidade em questão, é natural que as pessoas associem tal jornada a um desejo de meditação e paz espiritual no silêncio dos templos. Porém, não é esse o caso de nossa família. Fomos a Quioto porque é lá que residem os meus sogros – e fazemos o mesmo percurso todo fim de ano (exceção feita ao período de 2020 a 2022, em virtude da pandemia).

Mas, sim, a visita à casa da família de minha esposa também nos traz, a seu modo, a paz espiritual almejada após mais um ano de trabalho. Além, claro, de muita alegria. Principalmente agora, levando o Endi – que, com suas peraltices, faz os olhos dos avós brilharem de orgulho e felicidade.

A casa de meus sogros, aliás, fica numa área privilegiada de Quioto, muito próximo ao Kyoto Sento Gosho (pronuncia’se “goshou”), que é tecnicamente um dos palácios à disposição da família imperial japonesa. Digo tecnicamente, pois, uma vez que a cidade já não é a capital do país desde 1868, pouquíssimas são as ocasiões em que os membros da família imperial esticam as canelas até o local. De modo que os vinte e dois acres (ou 89 mil metros quadrados) seriam basicamente um latifúndio improdutivo – um pecado, vale frisar, especialmente se considerarmos que a grande maioria dos japoneses vivem em cubículos a que chamam de casas –, não fosse a presença de alguns trabalhadores a serviço do Imperador e... da polícia.

Sim, existe um carro-patrulha fazendo a ronda no local, naquele que talvez seja considerado um dos trabalhos mais fáceis e, por isso mesmo, mais monótonos do planeta. Isso porque não ocorre nada, repito, absolutamente NADA de perigoso no Sento Gosho. Mas, mesmo assim, os policiais ficam lá, cumprindo impecavelmente os seus deveres, tais quais os salva-vidas que ficam próximo às piscinas para resgatar os nadadores olímpicos em competição. Na expectativa, quem sabe, de um acontecimento “extraordinário” que possa tirá-los da rotina; como ocorreu em 2008 no Palácio Imperial de Tóquio, quando um turista espanhol foi preso por nadar completamente nu no fosso que cerca a nobre residência. Até agora, porém, pelo que pude pesquisar, nada assim tão emocionante ocorreu nos domínios do Sento Gosho; de modo que a monotonia tem sido mesmo, imagino, o cotidiano dos policias do local.

E, de fato, quando passei pelo guarda, deu mesmo para notar que ele tentava conter um bocejo. Ele, por sua vez, ao perceber que eu o observava, logo se recompôs, fazendo em seguida uma cara ameaçadora que parecia avisar-me: “Não se atreva, seu estrangeiro, a nadar nu no Gosho!”. Ordem tácita esta a que, claro, obedeci sem titubear. Além do mais, fazia frio.

 

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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