Mais dois cordéis elaborados por escritores ligados a Ases (Associação de Escritores de Bragança Paulista) e a UBT (União Brasileira de Trovadores) – seção de Bragança Paulista estão sendo publicados nesta edição.
De Lyrss Cabral Buoso, os leitores poderão conhecer um pouco sobre a história da Capela da Santa Cruz dos Enforcados. E de Marina Valente, conhecerão a história da lenda do chupa-cabra.
Vale registrar que continua em exposição, na sede da Ases, a mostra “Histórias da Cidade Poesia – Gente – Fatos – Memórias”, que reúne todos os cordéis e também fotos antigas da cidade. A sede da Ases fica na Rua Coronel Leme, 35, no Centro, e a visitação pode ser feita das 14h às 17h30.
Os cordéis foram feitos em comemoração ao aniversário de 252 anos de Bragança Paulista, a serem completados nesta terça-feira, 15.
CAPELA DA SANTA CRUZ DOS ENFORCADOS – UMA HISTÓRIA DE LIBERTAÇÃO
Lyrss Cabral Buoso
Temos que voltar no tempo
pra entender bem esta história,
que hoje eu conto, sem rodeio,
pra reverenciar memória
deste povo, que aqui veio,
pra viver uma luta inglória.
Só nos cabe imaginar
o sentimento de alguém,
de quem tudo foi tirado
pra se sentir um ninguém
e assim ser subjugado
por quem a força detém:
“Por que de tão longe eu vim
sem saber do meu destino?
Pra sofrer na escravidão?
Quando ainda era menino
deixei meu lar, meus irmãos.
Por que tanto desatino?
Por que de tão longe eu vim
pra nestas terras viver
sem direito à liberdade?
Escravo tem que sofrer?
Clamamos por igualdade
sem ela nem conhecer.
Nem bem o dia raiou,
vamos nós acorrentados
na lavoura trabalhar.
Feito gado encangado,
sem pausa pra descansar,
nem paga pelo suor dado.
À noite, só as estrelas
acompanham a solidão.
Não há alívio pras dores,
nem cura pra humilhação.
Como acalmar meus temores?
Há de existir salvação?
Por que de tão longe eu vim?
Pra ser vendido e sofrer?
De sol a sol trabalhar
sem ninguém compadecer
do corpo e alma a sangrar?
Os meus grilhões vou romper!”
Triste a sina do escravo
fugitivo, tão altivo!
Como bicho foi caçado
e sem dó feito cativo.
Novamente acorrentado,
lamentou por estar vivo.
Não lhe foi dado o perdão.
No tronco foi amarrado
e açoitado sem piedade
pra jamais ser imitado.
Por buscar a liberdade
estava sendo castigado.
Tolo! Não há esperança!
A forca, sua sentença,
foi decretada afinal.
Apegou-se à sua crença
naquela hora fatal.
Só a morte é a recompensa.
Foi nas terras de Venâncio
Bonaparte e Cirineia,
onde escravos fugitivos,
diante de uma assembleia,
tinham o final corretivo,
que ocorreu esta epopeia.
Do alto de uma ladeira
da Rua da Liberdade,
frondosa árvore espera
que se cumpra, sem piedade,
a sentença que libera
quem clamou por dignidade.
E contam os mais antigos
que o pobre do condenado
teve sorte nesse dia.
Para pasmo do povoado,
eis que a corda se rompia
e livrava o infortunado.
E cumprir a tal sentença
por três vezes foi tentado.
Aquele dia anoitece
sem se obter resultado.
Deus ajuda quem merece!
É a vontade do Sagrado!
Liberdade! Pedem todos.
Foi o escravo libertado.
Grande e geral a alegria
dos fiéis do povoado.
E a partir daquele dia
ninguém mais foi enforcado.
No lugar uma igrejinha
foi erguida em devoção
às almas do purgatório.
Todo ano em procissão,
o povo, num ofertório,
orava nessa intenção.
Santa Cruz dos Enforcados
em 3 de maio é lembrada
com novena, romaria
e festa para criançada.
Por anos aquele dia
tinha esta estória narrada.
E assim passaram-se os tempos
desde mil e novecentos,
quando em Bragança Paulista
houve esse acontecimento.
Só prá não perder de vista,
eu escrevo nesse intento.
O legado desse povo
bravo, alegre e destemido,
não se perdeu em lamentos,
ainda hoje é vivido,
apesar do sofrimento
por tanto tempo infringido.
A paga do sofrimento
foi a riqueza plantada
pelas tantas gerações
que aqui fizeram morada,
costumes e tradições
que ficaram enraizadas.
Por igualdade e respeito
seu clamor ainda é ouvido.
A escravidão acabou,
é o que temos aprendido.
Se o preconceito restou,
libertar não fez sentido.
Hoje, em meio a muitos prédios,
pelo Condephac tombada,
a capela permanece.
Pelas almas abençoadas
poucos lá vão fazer prece.
O passado é quase um nada.
Preservemos a memória
para não ser esquecida.
Pois a cultura de um povo
é aquela transmitida
do mais velho para o novo,
ensinando para a vida.
CHUPA-CABRA – SUGA SANGUE DE ANIMAIS, CARTÕES DE CRÉDITO E REAIS
Marina Valente
Bragança calma e pacata,
tal fato, eu acredito,
não tenha presenciado,
quando um bicho esquisito
atacou o galinheiro
e o que aconteceu transmito:
De manhãzinha, que horror!
Que grande desolação!
Muitos frangos e galinhas
retalhados, judiação!
O pescoço perfurado,
manchado de sangue o chão.
E a notícia se espalhou
feito fogo no rastilho.
Lobisomem? Credo em cruz!
Não se ouviu um só bisbilho!
Ninguém tomou decisão
nem agiu de afogadilho.
E assim foi, noite após noite,
o fato se repetindo:
ora aqui, ora acolá...
Não pensem que estou mentindo!
O rebanho dizimado,
cachorro ao canto ganindo.
Reforçaram os cercados,
puseram cruz nos portões;
passando a noite acordados,
acendiam lampiões;
promessas de todo o lado,
muita reza e orações.
E ninguém mais se atrevia
a sair na escuridão.
Assim que o sol se escondia
só um fazia plantão;
pela fresta da janela
aguardava a assombração.
Deu no jornal, deu na rádio,
sem nenhuma explicação.
Assunto pra toda a roda;
foi grande a divulgação.
Os mais velhos arriscavam
a sua avaliação.
-Humano não pode ser,
nem tampouco vir do além...
Pode ser cachorro louco,
esfomeado; porém,
cachorro pode ser visto
e a esse, não viu, ninguém.
A São Francisco, São Lázaro,
amantes da criação,
redobraram as novenas,
ofícios com devoção,
mas quando surgia o dia
era grande a comoção.
De repente, alguém ouviu
fantástica informação,
que na América Central
houve esta constatação:
no México e em Porto Rico
a mesma situação.
E disseram que o tal bicho
se chamava chupa-cabra.
E virou até mania
essa notícia macabra;
e o que mais a gente ouvia:
-À noite, a porta não abra!
Brasil Verdade mostrou
fatos estranhos; pois bem,
levaram um bicho morto,
que não convenceu ninguém.
Disseram que era alienígena,
que onças atacam também...
E a lenda do chupa-cabra
teve alcance mundial.
Mortes tão misteriosas
não podia ser normal;
nem a ciência provou
o que era aquilo afinal.
E foi o tempo passando,
ataques diminuindo;
o povo foi se acalmando
na rotina foi caindo;
as prosas foram mudando
enfim, a vida seguindo.
Os anos foram passando.
Acontecimento inédito:
aparelho chupa-cabra,
clonando cartões de crédito.
Roubando senha e por fim,
do rombo nada de rédito.
Preste atenção, meu Amigo!
Verifique o terminal,
se foi violado ou não,
se é mesmo o original.
Quando usar o seu cartão
lembre do tal animal!
Esteja bem prevenido,
é o meu conselho e sou franco,
cuide bem do seu dinheiro!
Chupa-cabra não é manco
só sei que é muito ligeiro:
o bicho ou o ladrão de banco.
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