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Cultura

Mês do folclore: conheça o autor bragantino que transforma os “causos” e lendas da região em livros

O escritor Joarez de Oliveira Preto se inspira em obras que mexem com a imaginação e nostalgia de quem vive ou viveu no campo

Compadre Pixoxó, Tião Caroço, Jerico Domador e Juca Lima são alguns dos tantos personagens que dão vida às histórias de Joarez de Oliveira Preto, bragantino oriundo da Vila Aparecida que aprendeu com a população simples da zona rural a contar e inventar “causos”. Aos 80 anos, ele carrega uma enorme experiência no universo literário e, embora tenha acompanhado o desenvolvimento da cidade durante sua vida, grande parte das suas criações são baseadas no dia a dia da roça, folclore e nas lendas contadas pela família da esposa, Maria José, com quem já soma 57 anos de casamento.

Quase que prevendo a pergunta, Joarez tira do bolso um livrinho amarelado e desgastado pelo tempo e explica que a motivação para começar a escrever vem da infância, por incentivo da escola. A condição da obra intitulada “História do Jacinto” não é à toa, já que o livro foi um presente de uma professora, recebido há mais de 70 anos, na Escola Municipal Dr. Jorge Tibiriçá.

O homem já fez um pouco de tudo na vida: de balconista de perfumaria a funcionário do Tribunal de Justiça do estado de São Paulo. Já teve a oportunidade, inclusive, de ter algumas músicas de sua autoria gravadas pela dupla sertaneja Miranda & Zé do Rio.

Sua proximidade com a arte também tem raízes na adolescência, vivida em prol do trabalho desenvolvido no antigo Teatro Santa Filomena, na época em que a igreja de Santa Filomena (hoje, Nossa Senhora Aparecida) estava sendo construída. No local, além dos bailinhos e da cantoria, inspirada em Mazzaropi, eles encenavam algumas peças, ou melhor, uma única peça: “A mão criminosa”, título da canção de sucesso que a dupla Tonico & Tinoco apresentava nos circos por onde passava.

CAUSOS  E  LENDAS

Joarez se casou aos 22 anos. O bom relacionamento com a família da esposa, que tinha um sítio no Bairro Salto de Cima, na zona rural de Extrema, divisa com Camanducaia, mudou sua forma de enxergar o mundo. Foi o Sr. José Alves de Lima, avô de Maria José, que o introduziu ao mundo dos “causos”, às histórias fantásticas, engraçadas e duvidosas que muito caipira jura de “pé junto” que aconteceu de verdade.

Seu José, aliás, é o único personagem das histórias de Joarez que realmente existiu. “Então eu conto: lá nas margens do Jaguari, morava o Juca Lima, caboclo bom tava ali. Das histórias que contava ele, a alma colocava para parecer que era verdade”, declama o trovador. Juca Lima é um dos protagonistas das histórias contidas nos livros da “Coleção Pixoxó”, lançada em 2011 na cidade de Joanópolis. No conto, ele narra uma aparição, tida pelo povo como sobrenatural, que ocorria na mata, em um trecho de uma estrada importante do bairro.


     Foto: arquivo Jornal Em Dia

“Por causa da luz que tem, assim ele explicava, é por isso que isso tudo na cidade não se encontrava. Falava do lobisomem e do Saci de tal maneira, que muitos se assustavam e não dormiam a noite inteira. Com as caretas que fazia e o tom grave da sua voz, até o cachorro tremia e o silêncio se fazia no meio de todos nós”, resgata mais um trecho em sua memória.

No mesmo livro, o conto do lobisomem ganha nova roupagem na figura de Jerico Domador, assim conhecido, segundo a história, devido a um erro ortográfico cometido pelo cartório que deveria registrá-lo como “Jericó”, e também por ter domado, certa vez, uma zebra para um circo.

Em “Os pescadores do Jaguari”, Joarez conta as boas e velhas “histórias de pescador”, inspiradas nas conversas que teve com dois amigos, João e Teórfilo, com quem costumava pescar. “São absurdos, mas próprios para mostrar o pescador mentiroso”.

Contudo, talvez o causo mais curioso dessa coleção seja “Meu amigo e ‘cumpadi’ Pixoxó”, que conta com um enredo digno de novela. Pixoxó era casado com uma mulher muito bonita, que era amada, em segredo, por seu compadre. Quando fica doente, à beira da morte, seu amigo resolve lhe contar toda a verdade:

“Compadre Pixoxó, o segredo que eu contar você deve de guardar, pois segredo de um só não se pode espalhar. Eu tô de olho na comadre desde que nós era criança e em quase toda a festança que nós ia para dançar, eu procurava sempre ela quando você não tava lá”.

NOVO  LIVRO

Claro que seu novo trabalho, ainda sem data de lançamento, também é movido à vida simples de quem vive no campo. “Traços dos meus contos”, não tem o objetivo de ser uma história “digna de um Oscar”, como o autor mesmo diz, mas de mostrar a importância da cumplicidade entre os membros de uma mesma família.

“É uma vida normal, são pessoas que cuidam uns dos outros, que ninguém está preocupado em levar vantagem em cima de ninguém. Então a família é muito unida e essa é a ideia que eu quero transmitir. Se eu não conseguir, azar o meu!”, comenta, aos risos.

Para ele, “um povo que não guarda a história é um povo sem alma”’, diz citando um pensador cujo nome não lhe veio à memória. “É coisa que serve como ensinamento. O folclore tem muito a ver com isso, tanto que Monteiro Lobato até hoje é lembrado! Por que um aluno das nossas escolas não pode ser um Lobato no futuro? Potencial todos têm, é só uma questão de desenvolver”, conclui Joarez.

Mais informações sobre suas obras podem ser cedidas pela Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases), da qual ele faz parte. Entre em contato com a entidade pela página no Facebook ou pelo site: http://www.asesbp.com.br/.

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