“Oppenheimer”, de Christopher Nolan, é uma aula de cinema. Ponto. Desde o roteiro bem costurado até o uso da tecnologia IMAX na resolução das imagens, o diretor britânico nos presenteia com uma obra cinematográfica no sentido mais amplo da palavra. Isso sem falar do elenco, magistral, encabeçado pelo irlandês Cillian Murphy e pelo sempre competente Robert Downey Jr. – o conflito entre seus respectivos personagens, aliás, é um dos grandes trunfos do roteiro. Um programa imperdível, enfim, para quem, como eu, adora cinema.
Pronto. E isso é basicamente o que escreverei sobre o enredo, pois também, como cinéfilo, não gosto que estraguem o meu prazer contando os detalhes de um filme antes que eu o veja.
Na crônica de hoje, quero falar unicamente sobre o que é assistir, em uma sala de cinema japonesa, a um filme que trata a respeito da bomba atômica. Não entregarei nada se disser aqui que J. Robert Oppenheimer, na condição de líder do “Projeto Manhattan” (1942-1946), foi um dos cientistas responsáveis pela criação da bomba que, no dia seis de agosto de 1945, seria lançada sobre a cidade de Hiroshima. Está nos livros de História – basta lê-los.
O que eu quero relatar aqui foi o que experienciei na sala de cinema no momento em que a bomba está sendo finalizada. Senti algo, um incômodo, por assim dizer, naquele instante. O silêncio, que é próprio do sempre educado público japonês, pareceu-me dessa vez angustiante. Até mesmo sepulcral. Foi, sim, um silêncio que parecia o de um choro abafado, o de um nó na garganta. Típico dos japoneses – aquele sentimento, aquela dor que percebemos... mas que não é expressada através de palavras.
Tive a oportunidade de visitar a cidade de Hiroshima em 2002. E posso dizer que o que senti no cinema na semana passada foi algo muito próximo ao que senti quando fui ao “Domo de Hiroshima”, uma das poucas construções que resistiram ao bombardeamento e que se tornou, portanto, um símbolo daquele trágico seis de agosto. Foi um sentimento de dor, mas também de culpa... talvez por não ter uma compreensão absoluta do que foi a bomba atômica. Isso, claro, somente o povo japonês pode saber...
Sim, senti-me, de certa forma, culpado, angustiado... uma mistura de sentimentos negativos. Por ser ocidental também, mas principalmente por não conseguir abrandar a dor que, naquele instante, pesava sobre a sala de cinema. Deixando-nos mudos. Talvez para sempre.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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