Fotos: Alana Brendellar/Arquivo Pessoal
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Política

Chapa Coletiva e Bruno Leme têm candidaturas entre as mais bem votadas mas não conseguem cadeira na Câmara

Depois da apuração oficial e confirmação dos nomes dos eleitos para a Câmara Municipal de Bragança Paulista, muitos eleitores tiveram o sentimento de espanto e frustração. Isso porque os candidatos que escolheram, mesmo com expressiva votação, não foram eleitos. A Chapa Coletiva, formada por Daniela Russo, Sol Correia e Thayla Godoy, teve 1.642 votos e ficou em terceiro lugar na classificação geral, enquanto Bruno Leme teve 1.282 votos e ficou em quinto lugar. A explicação para isso é o quociente eleitoral, que é o método pelo qual as cadeiras são distribuídas nas eleições, por meio do sistema proporcional de votos, em conjunto com o quociente partidário e a distribuição das sobras. Ou seja, mesmo que a candidatura tenha um alto número de votos, se ela não atingir o quociente, não é eleita.

O Jornal em Dia conversou com as co-candidatas e o candidato que foram unânimes em dizer que, mesmo tendo ficado de fora, ambas as candidaturas saem vitoriosas desta eleição.

REDE PARTICIPATIVA

Apesar de Daniela, Sol e Thayla estarem à frente da chapa como co-candidatas, cerca de 20 pessoas estão diretamente envolvidas com o coletivo que elas representam. Para Daniela, ou Dani da Chapa Coletiva, nome que apareceu nas urnas, a campanha foi bem-sucedida. “Sempre soubemos que o que propusemos era uma quebra de padrões e uma missão quase impossível. Somos três mulheres trazendo algo que já era diferente, quebrando narrativas e estéticas, desde as cores das santinhas, até a escolha da linguagem neutra, que sabemos que é uma barreira. Mas chegamos em parcelas diferentes da população, tudo de uma maneira muito amorosa. Eu acho que a amorosidade fez parte do nosso processo de luta que sempre foi sobre afetividade também. Se, com esse movimento, a gente conseguir construir o entendimento das pessoas de que não é só sobre elas, vamos ter um avanço real”, afirma.

Sol conta que, assim que a campanha começou, ela percebeu que a Chapa Coletiva seria, também, um grande canal de fomento de educação política. “Primeiro pela proposta da coletividade, que incentiva a participação consciente e cidadã em que um grupo de pessoas busca ocupar os espaços de poder. A Chapa fez essa primeira provocação e estimulou a discussão sobre o processo político. O segundo questionamento, que se tornou muito forte a partir da Chapa, foi de ‘como pode ser a terceira candidatura mais votada e não assumir uma cadeira na Câmara?’. Isso ficou pertinente e fez com que as pessoas debatessem a respeito.  Esse é um processo de educação importantíssimo porque gerou a reflexão sobre o sistema político. Independente de termos optado por uma candidatura única e entendermos os riscos que corríamos de não assumir uma cadeira, o jogo está facilitado para um outro lado, aquele que tem maior poder econômico. Esse sistema é perpetuado para que exista um modelo homogêneo de fazer política”, analisa.

Thayla afirma que a sensação pós eleição é esquisita. “A gente perdeu ganhando. Ao mesmo que temos o resultado, nas urnas, de que fizemos um trabalho efetivo, mas que não conquista um espaço porque o sistema não é feito para que a gente esteja lá. Fizemos um movimento que ecoou não só em Bragança, mas nas cidades da região. Recebi mensagens de gente de Piracaia, de Joanópolis, já pensando em candidaturas coletivas. Esse papel, de mostrar que é possível construir um formato coletivo de participação política, por mais utópico que ele possa parecer, a gente cumpriu. Nós colocamos um projeto na rua, e não as caras na rua, não é sobre a gente, é sobre esse projeto. Não é o poder pelo poder”, explica.

Ivan Montanari, que integra o coletivo por trás da Chapa, explica que o projeto é pluripartidário. Dani é filiada ao PSOL, partido por onde saiu a candidatura, Sol é filiada ao PT e Thay não é filiada a nenhum partido, assim como o próprio Ivan e diversas outras pessoas que também fazem parte do grupo. “É uma aliança entre pessoas, a filiação é secundária. É o PSOL bragantino que faz parte do movimento, e não o contrário. O partido entende que está construindo com esse movimento”, fala.

A Chapa Coletiva formou uma rede que atingiu, especialmente, mulheres e jovens, pessoas que, normalmente, não se sentem contempladas em uma política de representação formada, majoritariamente, por homens de meia idade. Talvez essa seja a frustração dos eleitores, quem irá os representar agora, dentro da Câmara? Mesmo não ocupando cadeira no legislativo, a intenção da Chapa é continuar o trabalho de educação política para trazer mais pessoas para o movimento e fortalecer o projeto para a próxima eleição que, não necessariamente, terá as mesmas pessoas à frente da candidatura.

TRABALHO COLETIVO

Para Bruno Leme, a votação expressiva que conquistou mostra a força do trabalho que ele vem realizando junto à Associação Comunitária de Habitação Popular, no movimento de moradia. “A candidatura nasceu por iniciativa do grupo de pessoas que forma o coletivo que é a Acohab, não foi uma ideia particular minha. O meu nome foi consenso por estar à frente desse trabalho há alguns anos e não teria como eu não aceitar ser o representante do movimento de habitação. Eu poderia fazer várias suposições a respeito de porque não entrei, mas nós jogamos de acordo com as regras que existem. De qualquer forma, para uma primeira candidatura a vereador, ver essa expressividade foi muito importante. E também mostra que o prefeito tem que olhar para a área da moradia porque, se um dos cinco mais votados representa essa pauta, é sinal de que é uma área fundamental para a população e para o desenvolvimento do município”, analisa. 

Na eleição anterior, Bruno foi candidato à prefeito, pelo PT. Desta vez, ele saiu candidato pelo PDT. “A minha primeira candidatura foi para que eu pudesse, a partir dali, ter uma projeção e começasse a ter resultado dentro do movimento em que atuo. Não adianta ser uma liderança comunitária se não traz resultado onde atua, aí é um discurso vazio”, analisa. 

Pós eleição, Bruno e o movimento de moradia continuarão o trabalho que realizam. Além da construção de casas e apartamentos populares, as ações incluem aulas de judô socioeducativo para crianças e adolescentes, cursos profissionalizantes de manicure e cabeleireiro e oficinas sobre o Plano Diretor, código de humanismo e mobilidade urbana. “Vamos batalhar, junto a nossos associados, para que a Prefeitura crie uma política municipal de habitação, para uma próxima eleição, se algum companheiro estiver em uma posição mais favorável do que a minha, em que tenha mais visibilidade do que eu, não tenho a vaidade para ser candidato novamente, eu sou muito de grupo. Mas, se esse grupo decidir que é importante que eu concorra outra vez, sempre estarei disponível para o coletivo. Hoje eu só tenho a agradecer a reciprocidade das pessoas que me deram votos pelo trabalho que desenvolvi. Não é fácil chegar a esse montante sem recursos. Não me considero um derrotado, temos tudo para chegar na próxima com mais força ainda. Além disso, mesmo que tenhamos perdido, foi com uma grande expressividade de votos, então representamos muita gente. E agora temos por obrigação estar lá propondo, reivindicando. Não acabou no domingo, foi o início da minha representação em relação a essas pessoas.”, concluiu. 

 

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