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Crônicas de um Sol Nascente

CEM

Se fosse um jogador de futebol, a crônica que agora entra em campo vestiria a camisa com o número CEM nas costas. Pois, sim, caros leitores, chego hoje a esta marca para mim tão especial: a da centésima crônica publicada no Jornal Em Dia Bragança – uma história que começou lá em 2019 e que só tem me dado alegrias: principalmente recebendo o carinho de todos vocês que, quinzenalmente, seja por meio da edição impressa ou da versão on-line, dedicam um tempinho para ler a respeito de meus encontros e desencontros no Japão. Arigatô a todos, realmente! E obrigado, muito obrigado, Jornal Em Dia, pelas maravilhosas portas abertas!

Mas, antes que minha emoção faça esta crônica perder o rumo, permitam-me recompor-me e ir direto para o tema de hoje, que é exatamente o número “cem”. Representando a perfeição em várias crenças e culturas, esse número é também responsável por algumas curiosidades a respeito da sociedade japonesa.

Uma delas são as famosas lojas de “hyaku-en”, uma aglutinação entre as palavras hyaku (cem) e ienes (a moeda nacional). Criados nos moldes dos “American dollar stores” – que, como o nome sugere, fixam o preço de um dólar para os seus produtos –, os hyaku-en shops japoneses uniformizam os preços no valor de cem ienes. É claro que, com o aumento do imposto de consumo no Japão (hoje dez por cento), não devemos levar esse valor ao pé da letra. Porém, mesmo com esses “impostozinhos” a mais, os preços nesses hyaku-en shops ainda permanecem bastante acessíveis. E com produtos de boa qualidade, vale ressaltar. Sei disso por experiência própria. Por exemplo, quando nos mudamos de Osaka para Saitama em 2005, foi basicamente com os produtos no valor de hyaku-en que decoramos a nossa casa. Pratos, talheres, toalhas e até panelas... Tudo a preço de banana e, acreditem ou não, com durabilidade comprovada. Inclusive, conservamos até hoje muitos dos objetos comprados então. Sendo assim, fica a dica: veio à Terra do Sol Nascente? Compre as lembrancinhas num hyaku-en shop para levar de volta ao seu país de origem. Depois é só mentir aos parentes e amigos que gastou “milhões” em presentes. Funciona que é uma beleza. Quem me contou isso foi um espelho (também comprado por cem ienes).

E, para além dos hyaku-en shops, outra curiosidade bacana do Japão envolvendo o número cem foi um costume que descobri dia desses conversando com um aluno a respeito do O-bon (o festival para honrar os mortos), que será no próximo mês. Trata-se de um jogo conhecido como “Hyakumonogatari Kaidankai”, e é assim: cem velas são acesas para que cada um dos participantes conte uma história de terror. Cada vez que se conta uma história, uma vela é apagada, até que a sala, ficando em completa escuridão, transforme-se em um ambiente propício para atrair fantasmas e outros seres sobrenaturais.

Como veem neste último exemplo, os japoneses curtem mesmo é sentir medo. Dá até vontade de convidá-los para uma excursão pelas ruas do Brasil... E isso à luz do dia!

 

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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