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Cultura

Cardápio Underground abre exposição “Objeta” nesta sexta

Mostra coletiva é resultado de residência artística formada apenas por mulheres 

Nesta sexta, 3, a 18ª edição do Cardápio Underground realiza a abertura da exposição “Objeta”, das 19h às 22h, na Garaginha do Edith Cultura.  

“Objeta” é resultado da residência artística impulsionada por Bia Raposo, da qual participaram Amanda Castellani, Ana Terra, Carol Yuri Florio, Érica Tessarolo, Julia Ballio e Laura A. Chaile. além das artistas convidadas para também expor, Carol Itzá, de São Paulo, e Mariana Farcetta, de Atibaia. 

Partindo do questionamento da relação dos espaços de arte com as pessoas e as paisagens do seu entorno, foi criada uma grande obra coletiva, da qual surgiram as obras em pintura, além de uma instalação com diversos objetos coletados durante as caminhadas pela região. 

“O título da exposição, que remete ao feminino da palavra ‘objeto’, também vem do verbo ‘objetar’. Em um mundo ainda pandêmico – uma quase distopia nem nova nem normal em um Brasil guiado por seres abjetos – contrapor-se, refutar, contradizer, replicar, parece ser uma das maneiras mais potentes de viver e de manter o olhar sempre atento para o que pode efetivamente trazer o novo: a arte e as mais diversas formas de afeto”, explica a apresentação da exposição, escrito por Cris Sushi. 

Bia Raposo - Foto: Vinícius Omar

 

A RESIDÊNCIA

A residência aconteceu a partir de um chamamento em parceria entre o Cardápio Underground e o Rota das Artes Serrinha e, segundo Bia Raposo, das 16 pessoas inscritas, 14 eram mulheres. 

“Já fazia um tempo que eu tinha vontade de reunir artistas mulheres em uma mesma produção, para estarmos juntas, em um mesmo espaço, produzindo. E também que fossem artistas que eu não conhecesse e que não se conhecessem, para que pudéssemos trocar novos olhares, conhecer a produção umas das outras, dividir essa produção, produzir junto, produzir obras coletivas e individuais inspirando umas às outras, e rolou! A seleção para a residência não foi com esse recorte de gênero, mas seis meninas acabaram sendo selecionadas por meio do portfólio delas”, explica. 

Todas as provocações e atividades artísticas propostas por ela resultaram em uma instalação coletiva, além de pintura de cada uma das artistas residentes, que também fazem parte de uma composição coletiva e, ainda, trabalhos  individuais. Terminada a residência, Bia convidou mais duas artistas para compor a exposição. 

“O que eu acho importante e interessante disso tudo é realmente o encontro de pessoas que nunca estiveram na Garaginha com a gente, pessoas que estavam em casa produzindo sozinhas. Começamos a residência em setembro, quando a maioria de nós já estávamos vacinadas pelo menos com a 1ª dose, mas todos os encontros foram o tempo todo com máscara. No final da residência já estávamos todas com a 2ª dose. A maioria de nós viveu esse processo de sair de casa e encontrar outras pessoas pela primeira vez”. 

Para Bia, depois de mais de um ano e meio de isolamento social por conta da pandemia, esse processo foi “muito importante e forte, por já ter esse encontro de afeto ao sair de casa”. 

O fato de todas serem mulheres também interferiu no resultado. “É óbvio que a produção foi afetada por sermos mulheres. As nossas conversas além da produção artística, além do pensamento estético influenciaram, principalmente por estarmos voltando a nos reunir pela primeira vez e construindo outros laços afetivos, compartilhando olhares e pensamentos sobre a arte”, reflete. 

Carol Itzá e Mariana Farcetta - Fotos: Bia Raposo

 

AS ARTISTAS

Assim como para Bia, também para as residentes, estar em um processo coletivo, em um momento ainda pandêmico, apenas com mulheres, reverberou muita coisa. 

Para Amanda Castellani, a experiência foi desafiadora. “Diferente da residência, o meu processo sempre foi muito pessoal, solo e íntimo. Sempre me fecho em quatro paredes e me isolo  para fazer qualquer arte que for. A maior, mais desafiadora e talvez um pouco dolorosa experiência foi essa. Não o observar, o escutar, o dividir, o olhar, mas me permitir a crueza e a vulnerabilidade. Estar no meio de tantas mulheres incríveis me libertou um pouco da minha individualidade de fazer arte solo. Sair da zona de conforto me ensinou muito sobre minha capacidade de entrega em meio a tanta artista diferente. E o mais interessante dentro disso é que, apesar de ter estado rodeada por elas, ainda tive a liberdade de ser eu mesma”, reflete.  

Para Ana Terra, a potência do encontro a fez perceber que não há como fugir da arte. “A residência foi potente do início ao fim, com todas as mulheres incríveis que pude conhecer e vivenciar essa experiência de sentir que a arte me persegue e eu não vou conseguir fugir dela, independente da correria do meu trabalho, O ‘eu sou artista’ é forte, e por essa experiência, eu consigo dizer isso mais vezes. Para mim, foi um encontro místico. O fluir das coisas que findam, o fluir das coisas que começam a partir de agora. E quem gosta mesmo de constância?”, analisa. 

Amanda Castellani / Ana Terra - Fotos Renata Theodoro

Já para Carol Yuri Florio, o que mais marcou foi a troca entre as artistas. “Foi o primeiro contato que eu tive produzindo em grupo, durante esse período pós quarentena. Eu passei quase dois anos sem produzir nada, então fazia muita falta. Não estava conseguindo produzir artisticamente, fiquei com um bloqueio criativo e precisava dessa troca presencial. E foi incrível. Além de dar esse empurrão para que eu voltasse a produzir, senti que todas nós éramos parte indispensável daquilo”. 

Para Érica Tessarolo, a experiência lhe trouxe oportunidades. “Pra mim foi uma boa oportunidade conhecer outras artistas da cidade, para vivenciar a condução cheia de bagagem da Bia e também o espaço pulsante da Garaginha. Foi também, claro, uma boa oportunidade para pôr a mão na massa para desenhar, pintar, performar em conjunto, compor com objetos e elaborar um trabalho autoral para o espaço. Foi uma experiência viva e bonita, como sinto serem sempre os encontros em torno da arte”, diz. 

Carol Yuri Florio / Ércia Tessarolo - Fotos Renata Theodoro

Julia Ballio vê o encontro entre elas como algo místico. “Foi Indescritível a relação que criamos ali. Não sei se pelo fato de sermos sete (que é um número místico) mulheres unidas, fazendo arte, que eu acho que é algo muito mágico mesmo. Conforme o tempo foi passando, fomos vivendo muitos momentos misteriosos, aconteciam coisas que eram muito bonitas, mas o que teve de mais bonito foi a nossa relação. Também foi muito interessante experimentar, pintar na parede uma coisa maior do eu estou acostumada a fazer. É muito bonito ver o processo criativo de todas, é muito bonito, parece uma dança”, avalia. 

Laura A. Chaile enxerga a residência como uma mudança em sua vida. “Eu cheguei insegura com a minha arte, imaginando que encontraria um pessoal que já estava há mais tempo nisso mas, na verdade, parecia que estávamos na mesma página. A maioria de nós somos jovens, que ainda estamos dando os primeiros passos e fomos nos dando apoio, nos encorajando. Sempre estávamos encantadas com os trabalhos umas das outras. A Bia soube conduzir, soube provocar, dar estrutura para fazermos esse pensamento, essa troca. Pegamos um papel pardo, extenso, colocamos em cima da mesa e fomos fazendo e vendo o que ia surgindo. E foi a partir disso que fizemos nossas pinturas. Foi a partir de algo coletivo, algo que só poderia surgir ali, naquela circunstância. É outra coisa quando você vai para esse espaço que está nesse fluxo de criação. Foi muito especial, fez total diferença na minha vida. Existe uma Laura antes e uma depois da residência. A perspectiva que temos agora dos caminhos que podemos tomar para a nossa arte, de forma mais profissional, é outra. Espero que todos gostem tanto quanto a gente gostou porque colocamos nossos corações e nossas almas ali”, conclui. 

Julia Ballio / Laura A. Chaile - Fotos Renata Theodoro

 

O CARDÁPIO

O Cardápio Underground é um festival alternativo de artes integradas que acontece em Bragança Paulista desde 2004, sempre envolvendo música, cinema e artes visuais na programação. Reúne frequentadores mais antigos e também cativa o público jovem, característica refletida na equipe. Composta por profissionais de diversas gerações, inclui desde pessoas que realizaram a primeira edição até as novas gerações, prezando pelo desenvolvimento de uma cadeia produtiva de jovens profissionais e artistas.

Foi do Cardápio Underground que nasceu o Edith Cultura, coletivo que reúne gestores culturais, artistas e educadores que valorizam a cultura como ferramenta de desenvolvimento social e humano. Atua na região bragantina como um laboratório de produção artística e de aprendizado a partir de linguagens como o audiovisual, as artes plásticas, a música, a fotografia, o teatro e outras manifestações artísticas. É um espaço aberto, livre e democrático que tem nos valores da juventude sua força realizadora, não estando preso a uma só temporalidade. É um receptáculo de dados e linguagens da contemporaneidade.

Foto: Renata Theodoro

 

SERVIÇO

 

Objeta

Sexta, 3

Entrada gratuita

Balcão funcionando até as 22h

Abertura da exposição 19h

A Garaginha do Edith fica na R. Cel João Leme, 229c, Centro

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