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Crônicas de um Sol Nascente

Brasil com “B” de Bossa

Na semana passada, durante uma festa de confraternização da escola em que trabalho, fui abordado por um sorridente japonês que, oferecendo-me uma garrafinha de cerveja, disse com entusiasmo: “Brasil? Eu adoro o Brasil! Já estive lá cinco vezes. Em Ubatuba, conhece?” (faço a mesma pergunta aos leitores).

Mais à frente, veio um colega nigeriano que, com a mesma alegria do supracitado japonês, foi logo dizendo: “Brasil? Tenho muitos amigos brasileiros. Pedro... Henrique...”. E, em seguida, mostrou o celular com as fotos dos tais amigos enquanto comentava: “Happy people. I love Brazil!” (Pessoas felizes. Eu amo o Brasil!).

E a coisa não parou por aí. Na mesma noite, sentado à mesa ao lado de um australiano, este comentou comigo: “Adoro a música brasileira. Bossa Nova. Gilberto. John Gilberto!”. E, em seguida, começou a cantarolar “Garota de Ipanema” em inglês.

Claro que, com tudo isso, fiquei muito feliz e até com um certo orgulho de minha brasilidade. Sim, porque o Brasil é basicamente um país simpático. Ainda que, na ocasião, nem todos os comentários tenham sido positivos. Um colega escocês, por exemplo, falando a respeito da morte dos ambientalistas na Amazônia, citou a palavra “Bolsonaro” como se estivesse falando do próprio anticristo. E, exaltando-se um pouco, indagou-me ao final: “Como é que vocês foram eleger esse ‘mad man’ (louco)?”. Foi a primeira vez na vida, confesso, que vi o uísque deixar alguém com tamanha lucidez... E, obviamente, fiquei sem resposta para a sua indagação.

Mas, “presidente lunático” à parte, a imagem do Brasil foi, num balanço geral, bastante positiva no dia daquela festa. Evidentemente que os estereótipos também estavam lá: por exemplo, a de que todo tupiniquim sabe sambar e é bom de futebol. E, uma vez que não tinha uma bola nas imediações, começaram os gritos de incentivo para que eu ensinasse uma das colegas japonesas a ensaiar uns passos de samba. Logo eu que sou o pior dançarino do mundo (no máximo pareço um sapo com cãibra quando, depois de umas cervejas, arrisco mexer as pernas). E dessa vez, o sapo foi de novo forçado a se contorcer, tentando defender, perante o resto do planeta, o orgulho do “requebrado brasileiro”.

E, falando em requebrado, o mesmo japonês do início desta crônica voltou ao ataque perguntando-me o que eu sabia a respeito de Anitta. Como respondi que “quase nada”, ele se afastou, visivelmente decepcionado.

Foi quando eu, sapo, voltei para a minha cerveja, refletindo se eu deveria familiarizar-me um pouco mais com as “celebridades brasileiras contemporâneas” (ou algo do gênero). Ou então ficar me contorcendo, fingindo que aquilo era samba, até se cansarem da apresentação.

Agora, na hipótese de arranjarem uma bola, só me restaria um recurso para não passar outra vergonha com o meu jeito de quem só deu “chutão” na vida: o de cair e rolar no chão, fingindo uma expressão de dor...

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal, é autor de dez livros, sendo o mais recente Contos de um Brasil Esquecido, lançado pela Editora Folheando (Pará), e finalista do Prêmio Uirapuru. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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