Confesso: eu as odeio. E não porque jamais aprendi a conduzir uma – até invejo quem o sabe, vendo a alegria com que pedalam. Mas aqui no Japão, o que era claramente uma admiração que eu tinha pela arte do ciclismo acabou se transformando em ódio. E isso já nos primeiros dias.
Era outubro de 2001. Lá estava eu, em uma calçada de Osaka, rumando à faculdade, quando fui surpreendido por duas flechas passando ao meu lado. Uma, aliás, como dizem no Brasil, passou “tirando tinta”. Foi quando o colega húngaro com quem eu caminhava, e que já estava aqui havia muito mais tempo, alertou-me: “No Japão, as bicicletas circulam pelas calçadas. Então tome cuidado!”. O que, de cara, já achei um absurdo. Logo um país tão organizado como o Japão... pisando assim na bola quando o assunto era planejamento de trânsito? – pensei, ainda tossindo a poeira deixada pela bicicleta que quase me atropelava.
E, desde então, infelizmente, a lei não mudou. A desculpa oficial é de que, por tratar-se de um país de pequena dimensão territorial, não há suficiente espaço para se fazer uma via somente para as bicicletas. Mas isso é balela! Por exemplo, em Nishiarai, um bairro próximo a minha casa em Saitama, conseguiram. Lá, tem-se uma calçada larga e perfeitamente dividida: o lado dos pedestres e o das bicicletas. Mas também, nestes mais de vinte anos morando aqui, foi o único exemplo decente que vi. Pois a maioria é mesmo uma bagunça quando o assunto são as bicicletas!
E uma bagunça perigosa, vale ressaltar. Afinal de contas, não são raros os casos de pedestres atropelados nas calçadas por ciclistas apressadinhos. Outro dia mesmo, recebemos um comunicado da escola em que trabalho informando que um professor havia sido vítima de um desses ciclistas, ficando com ferimentos leves. Parece brincadeira? Longe disso. Acredito até que o professor era de origem britânica, uma vez que os súditos do Rei Charles III estão acostumados a calçadas nas quais é expressamente proibida a circulação de bicicletas. Aí fico pensando: por que os japoneses, que gostam tanto de copiar os europeus, não fazem o mesmo que os ingleses? Mas não. Preferem insistir no erro.
De minha parte, ao ver uma bicicleta se aproximando, vou logo protegendo o meu filho. Pode parecer exagero, superproteção – digam o que quiserem –, mas prefiro continuar desconfiando dos ciclistas no Japão (assim como desconfio dos taxistas, mas essa já é uma outra história). E engana-se quem pensa que só os jovens ciclistas representam um risco: mães apressadas rumo às creches pela manhã também podem ser letais.
É, caros leitores, quem acha que japonês é tudo cortês deveria vê-los guiando uma bicicleta. Até Goku se desvia com medo!
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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