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SUB-VERSÃO

Bicicleta

Vivo sempre com a necessidade de me exercitar. Desde que aprendi que essa é uma prática absolutamente essencial, tenho tentado manter uma rotina de exercícios, mesmo em meio à pandemia e sem frequentar academias.

Pilates é uma prática que me ajuda muito, e ao contrário do que muita gente supõe, ela vai muito além de simples técnicas de alongamento. O pilates eu tenho mantido, com as devidas modificações que o momento nos impõe, é claro. E como sou grata a seu idealizador e às pessoas que mantêm seu legado vivo.

A questão é que, motivada por essa ânsia de não deixar meu corpo inerte, decidi comprar uma bicicleta recentemente. Linda, estilo retrô, o que além de beleza, me oferece mais conforto durante a “brincadeira”. Estou adorando a experiência de me reconhecer criança outra vez, sim, porque só costumava praticar esse exercício lúdico quando criança.

Crescer é passar a andar de bicicleta sem rodinhas... Mas, ainda assim, pode ser muito divertido, essa é a verdade.

Mas vou confessar-lhes uma coisa, sou um tanto desorganizada, e digo isso, porque se vocês me perguntarem onde está a nota fiscal da minha bicicleta recém-comprada, eu vou ter de parar e pensar um pouco, procurar um pouco.

Daí minha completa indignação com o episódio ocorrido recentemente, em que um casal acusou um jovem negro de ter roubado a bicicleta elétrica deles. O jovem ainda se justificou, mostrando fotos antigas em que aparece com sua bicicleta. Um policial teria perguntado onde estaria a nota fiscal do veículo.

Vocês entendem a gravidade dessa situação? Nesse país extremamente racista, um jovem negro não pode ser dono de uma bicicleta elétrica, sem que seja acusado de roubo.

É ultrajante! É repulsivo! É absolutamente inaceitável!

Agora, toda vez que pego minha bicicleta, quando para andar com ela no Lago do Taboão, ou simplesmente para dar umas voltas na garagem, acompanhada de meu sobrinho, eu sinto vergonha. Sim, vergonha, de viver num país onde meu sobrinho poderia também ser acusado de roubo se a cor de sua pele fosse outra.

E me dói mais ainda saber que há quem incentive, ainda que de forma indireta, a perpetuação desse estado absurdo de preconceito.

Eu ainda espero pelo dia em que todos, todos os brasileiros posam circular livremente com ou sem bicicletas, sem que sejam abordados e acusados de crimes que não cometeram.

Eu ainda tremo de indignação diante da audácia absurdamente maldosa daqueles que seguem cometendo crimes. Sim, porque racismo é crime, segue sendo crime, um crime que segue impune.

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