BEIJA-FLOR

Era um dia comum, daqueles em que não sentimos vontade de cozinhar e queremos um tempero diferente daquele de todo dia. Sendo assim, me dirigi ao restaurante para montar uma marmita para mim, e comprar outras prontas para o pessoal de casa.

A minha é montada apenas com os ingredientes que tenho me proposto a comer, já que estou firme no propósito de eliminar os quilinhos que ganhei durante o ápice da pandemia.

Minha ansiedade também aumentou durante esse período, aliás, desconheço um ser humano que não tenha sido minimamente afetado por esse caos que atravessamos e que ainda nos ronda.

Acupuntura ajuda e muito, as conversas, ainda que breves, com minha médica acupunturista também. Ela me lembra de respirar, pasmem. A vida no automático nos faz esquecer da delícia que é estar presente e sentir nosso ato de respirar. A ansiedade atrapalha tudo o que nos propomos a fazer, nos distancia do momento presente, com pensamentos variados, excessivos e absolutamente desnecessários. Daí minha necessidade de, vez por outra, me chamar de volta, ao momento, ao que sou.

Um barulhinho nervoso, um canto de passarinho que mais parecia um pedido de socorro. E eu me dirijo ao local de onde o som parece estar vindo.

Numa das salas do casarão que abriga o restaurante, um lindo, mas aflito beija-flor se desespera ao tentar sair.

E posso imaginar com que graça ele adentrou ao lugar, com suas asinhas leves e graciosamente ágeis. E posso imaginar também seu desespero ao não conseguir mais encontrar a saída.

A saída estava logo ali, nas grandes janelas que povoam todos os cômodos do casarão. Mas ele voava alto, e rápido e aflito, não se dava conta de que um simples movimento de baixar a altura de seu vôo o tiraria fácil daquela situação.

Sou um beija-flor acuado às vezes. Deixo-me dominar pelo desespero e não consigo enxergar claramente a saída diante de mim.

Quero de volta a beleza e a leveza do vôo do beija-flor, livre, seguro de si, capaz de entrar e sair sem qualquer sinal de desespero.

Preciso e quero me lembrar de que não tenho o controle sobre todas as situações, especialmente as que independem de mim. Mas possuo em meu interior a força necessária para, liberta de pensamentos excessivos, encontrar a saída sempre.

E é nessas horas em que recobro a consciência do que sou e da necessidade de estar presente, que me lembro de uma canção que diz:

“Puxa uma cadeira, minh’alma,

Que eu quero lhe perguntar,

Por que me roubas a calma?

Me botas tristeza no olhar?

Vamos entrar num acordo,

Vida tranquila viver...

Lembra daquilo que o Mestre falou,

A minha graça te basta.”

E volto a ser beija-flor livre.

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