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Crônicas de um Sol Nascente

Barbie e a bomba

Para começo de conversa: o fenômeno de bilheteria é merecido. Pelo menos, essa foi minha impressão ao assistir a Barbie num cineminha próximo a minha casa. E, sem entrar em detalhes sobre o filme (afinal, como cinéfilo, também detesto “spoilers”), hoje quero apenas falar a respeito do lançamento no Japão, ocorrido no último dia onze de agosto, data esta que acabou gerando uma grande polêmica por aqui. Mas, para entender o porquê de tal lançamento ter causado tanta controvérsia na Terra do Sol Nascente, é necessário primeiramente situar os leitores no contexto “Barbenheimer”.

Nos Estados Unidos, Barbie foi lançado juntamente com um outro filme que também acabou se tornando um estrondoso sucesso – Oppenheimer, do aclamado diretor Christopher Nolan, obra esta que narra a criação da bomba atômica. O tema, claro, já é extremamente delicado para os japoneses: tanto que Oppenheimer ainda não tem uma data de estreia por aqui. Oficialmente, o motivo é a greve dos atores e roteiristas em Hollywood; mas claro que deve haver outras razões, tais como “a necessidade de editar o filme de modo que não seja proibido no lucrativo mercado nipônico”.

Ok, Oppenheimer tem um tema literalmente explosivo; mas... o que isso tudo tem a ver com Barbie? – indaga-se possivelmente o leitor. O problema começou com uma “brincadeira de mau gosto” que alguns internautas resolveram fazer criando um pôster que combinava os dois filmes. Trata-se de uma imagem em que Barbie aparece toda faceira, carregada no ombro de Robert Oppenheimar, com uma bomba atômica explodindo atrás deles e a seguinte frase pipocando na tela: “Será um verão para ser lembrado?”. E seria somente mais uma molecagem de tempos de internet se a Warner Bros., que distribui o filme sobre a boneca da Mattel, não tivesse tido a insensibilidade de retuitar a postagem. E, para piorar as coisas, aí entra a questão da data do lançamento de “Barbie”, que mencionei acima: ONZE DE AGOSTO, ou seja, dois dias após a data em que, há exatos setenta e oito anos, a bomba caía sobre Nagasaki. O que, naturalmente, fez com que os protestos no Japão começassem, incluindo uma petição para que nenhum dos dois filmes fosse exibido por aqui.

Certo ou errado? Censura ou questão de bom senso? Não saberia dizer nem com precisão nem com responsabilidade, mesmo porque o tema é extremamente delicado. Além do mais, sempre haverá pessoas que se incomodam com um filme, seja por motivos históricos ou apenas pessoais. Barbie, por exemplo, que é basicamente uma comédia, trata de um outro tema que, ao que parece, acabou chocando alguns japoneses bem mais até do que a questão da bomba, a saber: o papel da mulher na sociedade. Isso porque o Japão, em seu mundo plástico de perfeição, é na verdade um dos países desenvolvidos de maior desigualdade social (e salarial) entre homens e mulheres: em outras palavras, aqui os Kens comandam sem brecha para discussão. E Barbie, logicamente, coloca o dedo nessa ferida da sociedade nipônica. Pude mesmo comprovar isso na sessão em que estive: alguns senhores levantando-se e saindo do cinema ainda no meio da projeção. E isso por que o filme era chato? Não, em momento algum. E, ainda que o fosse, não creio que isso faria com que os tais espectadores se retirassem: mesmo porque não é comum no Japão as pessoas entrarem e saírem no meio de uma sessão, por mais chato que um filme seja. Não, senhor. Pareceu-me bem mais que o motivo da debandada dos “samurais” na referida sessão era que “Barbie”, naquele instante, lançava um outro tipo de bomba: ferindo – e muito – o orgulho do patriarcado japonês.  

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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