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Crônicas de um Sol Nascente

BABEL

Em novembro, durante cinco dias, estive lecionando na cidade de Yamanashi – como parte de uma excursão de uma escola pública de Ensino Médio. Uma experiência maravilhosa, vale logo registrar, pois, além de oportunidade de interagir com os jovens alunos japoneses (geralmente, leciono para adultos), também pude conhecer colegas professores das mais diversas partes do globo: Quênia, Canadá, Jamaica, Itália, Inglaterra, Nova Zelândia, entre outros países. Claro, a língua oficial nesses dias era o Inglês; mas, ainda assim, as barreiras de comunicação existiam: fosse pelas diferenças culturais, de personalidade, ou, no caso mais específico dos estudantes, o medo de ter de expressar-se em outro idioma.

Sim, ter de falar em outro idioma é no Japão uma espécie de trauma. O que se deve, claro, ao histórico isolamento do país (que somente abriu seus portos na metade do século XIX); mas também, ao meu ver, à forma como a língua inglesa é ensinada nas escolas: forçando os estudantes mais à memorização do que realmente os incentivando à comunicação.

E, quando finalmente tentam incentivar os seus alunos a falarem mais, os professores japoneses o fazem de modo equivocado. Lembro-me de uma cena, na referida excursão, em que estávamos, meus estudantes e eu, jantando no refeitório, quando o professor titular, vendo-os calados por um momento, passou pela mesa e gritou aos garotos: “Speak English!” (exatamente assim: usando o imperativo). Resultado: os jovens, ficando apavorados, não mais conseguiram articular uma palavra sequer.

Irônico é que, no dia seguinte, encontrei esse mesmo professor no elevador e – adivinhem – descobri que ele tinha o Inglês pior do que os jovens a quem repreendera para exibir sua improdutiva autoridade.

O que é ainda mais triste nesse sistema educacional japonês é que essas barreiras de comunicação vão se repetindo de geração em geração, criando dois tipos: aqueles que têm verdadeira repulsa a idiomas estrangeiros; e um segundo tipo (para mim, o pior), que aprende a gramática menos pela vontade de comunicar-se do que para exibir conhecimento. Esquecem-se estes últimos de que a função primordial do aprendizado de idiomas é a comunicação! De modo que, diferentemente dos mestres japoneses, digo sempre a meus estudantes que prefiro mil vezes que construam frases gramaticalmente incorretas do que desistam de expressar-se. E, durante esses cinco dias, fiquei feliz porque alguns deles, compreendendo a necessidade do erro, começaram a fazer-me perguntas do tipo “você gosta do Japão?”. E tudo ia bem até que chegavam os professores japoneses para reerguer, com suas ameaças e gritos, novas torres de Babel.

 

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases). Em novembro de 2019, foi o vencedor, na Espanha, do 13º Concurso de Microcontos do Festival de Cine Terror de Molins.

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