Um gigantesco e muito velho pau-brasil foi encontrado recentemente no sul da Bahia. Maior e mais velho que outro, encontrado também nas matas de Itamaraju, onde uma comunidade de produtores planta cacau à sombra das árvores altas. O tronco mede 7,13 metros de circunferência. Deve ter uns 600 anos de idade.
A existência dessa árvore era lenda antiga na região e sua descoberta é significativa e emocionante – ela é uma sobrevivente, uma árvore anciã, testemunha viva de um tempo em que os homens de fora não andavam pela floresta, da qual hoje restam apenas 12%, segundo o historiador Warren Dean.
A lenda levou o botânico Ricardo Cardim, do Projeto Grandes Árvores, autor do livro “Remanescentes da Mata Atlântica”, o empresário Alex Vicintin, do viveiro Fábrica de Árvores, e o fotógrafo Cássio Vasconcelos, a estudarem a região. E foi o guia local contratado, Uanderson Matos, que descobriu o velho e majestoso pau-brasil.
“Esse teve tempo para crescer em paz... Árvores assim são sobreviventes de uma história de cinco séculos de saque e massacre sistemático da família dos pau-brasil, vítimas da exploração de sua madeira preciosa” (oeco.org.br)... São árvores que têm história, têm memória, um patrimônio vivo que deve ser preservado...
O que fazer para preservar este tesouro? Esconder ou divulgar? É o dilema agora dos produtores. Atração turística bem enquadrada é um caminho encontrado em outros países nos quais os turistas pagam para ir ver e fotografar exemplares vivos e antigos da natureza... Uma sobrevida para as árvores altas do local e para a comunidade que busca se organizar em torno da ideia de um parque de árvores gigantes.
Na outra ponta do espectro, temos a cidade, o ser urbano e a terra sufocada pelo asfalto, pelo concreto, pela população, pelas grandes obras e pelo desmatamento sistemático desde que a primeira caravela aportou nas costas da Bahia, há cinco séculos.
Bragança Paulista tem uns 200 anos de existência. É uma estância climática, está entre serras e águas, tem um pa-trimônio verde natural a proteger para conservar seu título. Onde estão as árvores altas mais antigas?
O tecido urbano abriga uns 170 mil habitantes, 165 bairros e localidades recenseadas. Qual a porcentagem de área verde conservada na cidade e seu entorno? Poucos dados, poucas estatísticas. Quantas praças e parques? Onde estão os respiros da cidade, qual o espaço verde dos cidadãos urbanos e como eles lidam ou não lidam com a natureza? Se os moradores de Itamaraju estão preocupados em preservar uma única árvore, o que fazem os bragantinos pela praça ao lado? Para que e para quem serve a praça? Quem deve cuidar?
Foi com esta preocupação em mente que surgiu em 2015 a ideia de fazer observação de aves nas praças da cidade, a exemplo do programa desenvolvido pelo Instituto Butantã e seu Observatório de Aves: um passeio guiado, mensal, aberto a todos, nas praças da cidade.
E assim, com o apoio também do Avistar Brasil, que reúne em encontro anual observadores de aves de todo o mundo, já na sua 15ª edição (a deste ano foi virtual), foi criado o Movimento de Observação de Aves Urbanas, projeto desenvolvido pela Associação Bragança Mais e Coletivo So-cioambiental de Bragança Paulista.
A passarinhada, como se chama a atividade já na sua 19ª edição, é uma ação lúdica e construtiva de educação am-biental, apta para todas as idades sem restrições. A partir daí, foi criada a campanha popular “Ave Símbolo”, que elegeu a Coruja-buraqueira como ave representativa de Bragança Paulista. O resultado da campanha foi consagrado por unanimidade pela Câmara dos Vereadores na Lei Ordinária 4.610 de 2018.
Esse movimento amador – isto é, não profissional – é de grande importância para o recenseamento das aves brasileiras. Os dados compilados no eBird (ebird.org/brasil) e fotos e sons no Wiki Aves (www.wikiaves.com) passam a fazer parte do banco de dados usados por cientistas e especialistas. E as praças são o reservatório urbano de preservação e observação de aves.
A atividade faz parte do programa Ciência Cidadã, que busca motivar as pessoas a observar aves e contar o que viram para ajudar os cientistas a fazerem seu trabalho. Afinal, eles não podem ficar todo o tempo passeando pelas praças. Se uma espécie chega aqui que não é sua praça, ou desaparece, isso quer dizer alguma coisa a respeito da saúde e qualidade de nosso território e daquela espécie.
O maior banco de dados do gênero fica na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, que gerencia o ebird e dá suporte aos observadores do mundo todo. No Brasil, são uns 30 mil observadores em ação e já foram listadas 1.919 espécies das 10.426 registradas no mundo. Cifra modesta ainda, mas que já mobiliza alguns setores da economia, como o turismo e coloca o país no terceiro lugar em termos de maior diversidade de espécies. Em Bragança Paulista, já estão identificadas no wiki aves, por 57 observadores, 288 espécies de aves.
A observação de aves nas praças leva a prestar atenção às praças que temos – o conceito de praça – função e objetivo, desenvolvimento e manutenção, o modo como o cidadão urbano usa esse espaço público e como o mundo natural se instala (ou é instalado) e se adapta (ou não) ao espaço confinado. E entender como a saúde e bem-estar dos urbanos depende, em boa parte, da saúde vegetal das praças, um verdadeiro filtro de água, luz e ar, que é o “trabalho” que fazem as árvores. Observar aves é começar a olhar em volta... E para cima. Para acima das árvores, onde vivem os passarinhos que queremos preservar nas praças.
Teresa Montero Otondo é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura pela USP. É colaboradora do Coletivo Socioambiental, membro da Associação Bragança Mais e co-fundadora da Associação de Cafeicultores de Bragança Paulista.
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