Vivi para ver que os navios negreiros continuam atracando em portos brasileiros. Ou, para constatar que eles simplesmente nunca deixaram essa travessia.
Se, outrora, nossos irmãos negros vinham acorrentados, exilados de suas pátrias, pela violência da escravidão que lhes era imposta, hoje vêm presos à mais pura promessa de liberdade. Liberdade essa que já não encontram em sua terra natal, muitas vezes marcada pela guerra.
Mal sabem eles da guerra odiosa que os espera por aqui. Nesse país tido como amoroso e receptivo, o imigrante congolês encarou a face mais perversa do ser humano. Fugiu dos braços de uma guerra para cair nos braços de um algoz ainda mais cruel.
“E o partido nazista devia ser legalizado”, foi a frase a que fui obrigada a ouvir recentemente também. Ambas notícias de morte: a do assassinato do imigrante Moise e a fala criminosa de Monark.
É tão estapafúrdio isso tudo, que nem sei o que pensar. Chego mesmo a cogitar que o absurdo foi legalizado há tempos nesse país de históricos absurdos. Se não legalizado, autorizado.
Gente má, capaz de toda espécie de atrocidade, encontrava-se quase que escondida, como se ainda lhe restasse algum pudor, enrustida mesmo. Agora, e sabemos muito bem qual sua motivação, sente-se à vontade para escancarar orgulhosamente sua verdadeira face.
A caixinha de Pandora reaberta, o discurso odioso “regulamentado”. A humanidade posta de lado, à margem da História. A atrocidade vista como normal.
Aqui, quando se é negro e imigrante, e se cobra uma dívida por trabalho realizado, o pagamento que se recebe é a morte, morte a pauladas. O tronco pós-moderno.
Aqui, quando se é humano o suficiente para reconhecer no Holocausto um crime do qual todos, sem exceção deveriam se envergonhar, você é acusado de ser esquerdista.
Ah, por favor! Afinal, que horror é esse em que nos tornamos?
E pensar que Anne acreditou até o fim na bondade das pessoas. E pensar que estamos cada dia mais próximos dos monstros que temíamos.
Negros, judeus, imigrantes, mulheres... O Brasil os odeia. O Brasil se odeia.
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